A Argentina esteve a poucos minutos de uma eliminação histórica, mas encontrou no limite do jogo uma virada com cara de eternidade. Nesta terça-feira, 7 de julho de 2026, em Atlanta, a seleção comandada por Lionel Scaloni venceu o Egito por 3 a 2 pelas oitavas de final da Copa do Mundo, depois de sair perdendo por 2 a 0 e reagir com gols de Cristian Romero, Lionel Messi e Enzo Fernández. A classificação coloca a atual campeã mundial nas quartas de final e mantém vivo o projeto de seguir em busca do tetracampeonato.
O Egito abriu o placar aos 15 minutos, com Yasser Ibrahim, e ampliou no segundo tempo com Mostafa Zico. A Argentina, pressionada pelo relógio e pelo peso da própria camisa, só começou a reação aos 34 minutos da etapa final, quando Romero marcou de cabeça após cruzamento de Messi. Quatro minutos depois, o camisa 10 se redimiu de um pênalti perdido no primeiro tempo e empatou. Já nos acréscimos, Lautaro Martínez cruzou da direita e Enzo Fernández cabeceou para transformar uma quase tragédia argentina em classificação épica.
Uma virada com roteiro de Copa do Mundo
A partida teve todos os elementos que fazem um mata-mata atravessar gerações: favorito em perigo, zebra viva, pênalti defendido, gol anulado, pressão psicológica, craque decisivo e virada no fim. O Egito não jogou como coadjuvante. A equipe africana encarou a Argentina de frente, explorou a bola aérea no primeiro gol, acelerou com Mohamed Salah e Haissem Hassan no lance do segundo e ainda viu um golde Zico ser anulado após revisão do VAR.
A Argentina, por outro lado, viveu um jogo de altos e baixos. Messi desperdiçou pênalti ainda no primeiro tempo, parando em Mostafa Shoubir, que também fez defesas importantes e sustentou o Egito enquanto a pressão aumentava. O camisa 10 ainda acertou a trave em cobrança de falta, em uma daquelas noites em que o jogo parecia carregar sinais de uma despedida amarga.
Mas a Argentina de Scaloni já mostrou em outros momentos que sabe conviver com o sofrimento. A equipe não produziu uma atuação brilhante tecnicamente, nem controlou o mata-mata como gostaria, mas manteve volume, ocupou a área e insistiu até quebrar a resistência egípcia. Quando Romero diminuiu, o jogo virou emocionalmente. Quando Messi empatou, o Egito sentiu. Quando Enzo marcou, a virada deixou de ser apenas placar e virou memória.
Artilharia na Copa de 2026 e no total em Mundiais
O gol contra o Egito também ampliou a dimensão individual de Messi nesta Copa. O argentino chegou a 8 gols na edição e assumiu a liderança isolada da artilharia do torneio, à frente de Kylian Mbappé, que aparece com 7. A campanha goleadora do camisa 10 começou com hat-trick contra a Argélia, passou por gols contra Áustria, Jordânia e Cabo Verde, e ganhou novo capítulo dramático diante dos egípcios.
No total das Copas do Mundo, Messi agora soma 21 gols, ampliando sua marca como maior artilheiro da história do torneio. A distribuição ajuda a mostrar a longevidade absurda do argentino: marcou 1 gol em 2006, passou em branco em 2010, fez 4 em 2014, marcou 1 em 2018, anotou 7 na campanha do título de 2022 e já soma 8 em 2026. É uma trajetória que atravessa seis Mundiais e transforma cada gol atual em recorde ampliado.
O detalhe torna a virada ainda mais simbólica. Messi não viveu uma noite perfeita. Perdeu pênalti, sofreu com a marcação, viu a Argentina ficar dois gols atrás e precisou lidar com a sensação de que sua última Copa poderia terminar melancólica. Ainda assim, apareceu nos dois lances que recolocaram a seleção no jogo: primeiro com o cruzamento para Romero, depois com o gol do empate. A partir dali, a Argentina voltou a respirar.
A busca pelo tetra segue viva
A vitória também conecta a geração atual a uma missão histórica. A Argentina já venceu a Copa do Mundo em 1978, 1986 e 2022. Agora, em 2026, tenta transformar a era Messi e Scaloni em uma dinastia ainda maior, buscando o quarto título mundial de sua história. Essa caminhada ganha ainda mais peso quando lembrada dentro da , marcada por Kempes, Maradona, Messi e por finais que ajudaram a moldar a identidade da Albiceleste.
O tetra não seria apenas mais uma estrela. Seria a confirmação de uma seleção capaz de defender o título, atravessar mata-matas tensos e manter competitividade em uma fase final em que qualquer erro custa a eliminação. A virada sobre o Egito não apaga os alertas, mas fortalece uma ideia central: a Argentina pode sofrer, pode oscilar, pode parecer no limite, mas ainda tem recursos técnicos e emocionais para sobreviver.
A melhor campanha de sua história
A eliminação foi cruel para o Egito também porque a seleção africana vivia sua Copa mais marcante. Antes de enfrentar a Argentina, os egípcios já haviam quebrado um tabu de 92 anos ao conquistar a primeira vitória de sua história em Mundiais, batendo a Nova Zelândia por 3 a 1 ainda na fase de grupos. Depois, na fase 16avos, empataram com a Austrália por 1 a 1 e avançaram nos pênaltis por 4 a 2, alcançando pela primeira vez uma vitória em confronto eliminatório de Copa do Mundo.
Esse contexto deixa o jogo contra a Argentina ainda maior. O Egito chegou como uma seleção em ascensão dentro do torneio, liderada por Mohamed Salah, com confiança, casca emocional e a chance de transformar uma boa campanha em feito histórico. Ao abrir 2 a 0 sobre a atual campeã mundial, o time africano ficou muito perto de levar esse roteiro para a história. A virada argentina, por isso, não derrubou uma equipe qualquer: interrompeu a melhor caminhada egípcia em Copas e deu ainda mais dramaticidade à classificação da Albiceleste.
Por isso a eliminação é dolorosa justamente porque a classificação esteve muito próxima. A seleção africana fez um jogo corajoso, colocou a atual campeã contra a parede e teve atuação de alto nível de Shoubir no gol. Yasser Ibrahim, Zico, Salah e Haissem Hassan foram peças importantes de uma noite em que o Egito deixou de ser apenas ameaça e virou protagonista por quase todo o confronto.
A queda nos minutos finais, porém, mostra a crueldade da Copa. O Egito esteve perto de construir uma das maiores zebras do torneio, mas não resistiu ao peso da pressão argentina. Quando começou a recuar demais, permitiu que Messi recebesse, cruzasse, finalizasse e reorganizasse a partida emocionalmente. Contra uma seleção desse tamanho, poucos minutos de hesitação bastam para mudar tudo.
O que vem pela frente para a Argentina
Com a classificação, avança às quartas de final e enfrenta o vencedor de Colômbia x Suíça, em Kansas City, no sábado. A equipe chega à próxima fase fortalecida pelo resultado, mas também avisada pelos sustos. A defesa sofreu em transições, o meio-campo demorou a controlar o ritmo e o ataque precisou de uma reação para evitar a eliminação.
Ainda assim, Copas do Mundo também são feitas de partidas assim. Nem todo campeão atravessa o torneio vencendo com superioridade. Muitas vezes, a campanha ganha corpo justamente nos jogos em que a queda parece inevitável. Para a Argentina, o 3 a 2 sobre o Egito pode ser esse ponto de virada: a noite em que a seleção esteve no chão, levantou com Messi, venceu com Enzo e seguiu viva na busca pelo tetracampeonato mundial.