O título do Athletico-PR na Copa do Brasil de 2019 é um dos capítulos mais emblemáticos da era moderna do clube. Não foi apenas uma taça inédita. Foi a confirmação de um projeto competitivo, agressivo, bem treinado e capaz de enfrentar diferentes tipos de pressão: jogos travado, mata-mata contra favorito, remontada em semifinal e decisão fora de casa contra um rival empurrado por sua torcida.
O Furacão entrou diretamente nas oitavas de final por disputar a Libertadores daquele ano e fez uma campanha curta em número de fases, mas enorme em peso esportivo. Foram 8 jogos, 4 vitórias, 3 empates e 1 derrota, com 8 gols marcados e 5 sofridos. A trajetória teve Marco Ruben, Rony, Nikão, Bruno Guimarães, Léo Pereira e, acima de todos nos momentos de pênaltis, o goleiro Santos como protagonistas diretos.
O título também colocou o Athletico em uma galeria especial da história da Copa do Brasil. A competição, marcada por mata-mata, pressão regional e noites de virada, encontrou no time de Tiago Nunes uma campanha com todos os ingredientes de um campeão memorável: eficiência, personalidade, repertório tático e frieza nos jogos grandes.
O início da campanha
A campanha começou diante do Fortaleza, então comandado por Rogério Ceni. No jogo de ida das oitavas de final, em 16 de maio de 2019, o Athletico foi até a Arena Castelão e empatou por 0 a 0. Foi uma partida de pouca inspiração ofensiva, mas importante para o roteiro do mata-mata: o Furacão voltou para Curitiba sem desvantagem e com a possibilidade de decidir a vaga no seu ambiente.
A volta aconteceu em 5 de junho, na Arena da Baixada. O confronto parecia caminhar para os pênaltis até Marco Ruben aparecer aos 43 minutos do segundo tempo. O atacante argentino marcou de cabeça, garantiu o 1 a 0 e colocou o Athletico nas quartas de final. O gol tardio deu o tom de uma campanha que seria marcada por resistência emocional e decisões em detalhes.
O primeiro grande teste
Nas quartas de final, o adversário foi o Flamengo. E não era qualquer Flamengo. O clube carioca vivia o início do trabalho de Jorge Jesus, tinha um elenco estrelado e se transformaria, meses depois, em campeão brasileiro e da Libertadores. Para o Athletico, passar por esse confronto era mais do que avançar: era provar que o time podia competir contra um dos elencos mais fortes do país.
A ida, em 10 de julho, na Arena da Baixada, terminou 1 a 1. Léo Pereira abriu o placar para o Furacão aos 5 minutos do segundo tempo, e Gabigol empatou aos 20 minutos da etapa final. O jogo também ficou marcado por lances revisados pelo VAR e gols anulados, em um duelo intenso entre dois rubro-negros de estilos diferentes.
A volta, em 17 de julho, no Maracanã, repetiu o 1 a 1. Gabigol colocou o Flamengo na frente, mas Rony empatou para o Athletico e levou a decisão para os pênaltis. Foi ali que Santos começou a construir uma das grandes atuações individuais da campanha: o goleiro defendeu as cobranças de Diego e Everton Ribeiro, Vitinho também desperdiçou pelo Flamengo, e o Furacão venceu por 3 a 1 nas penalidades. Pelo Athletico, Jonathan, Lucho González e Bruno Guimarães converteram.
A derrota em Porto Alegre
A semifinal colocou o Athletico contra o Grêmio, outro gigante copeiro. O Tricolor gaúcho tinha uma tradição enorme na Copa do Brasil, elenco experiente e uma identidade de mata-mata muito consolidada. O jogo de ida, em 14 de agosto, na Arena do Grêmio, foi o pior momento da campanha paranaense.
O Grêmio venceu por 2 a 0, com gols de André e Jean Pyerre. O placar deixou o Athletico em situação difícil: para avançar sem pênaltis, precisaria vencer por três gols de diferença na volta; para levar a decisão às cobranças, teria que devolver exatamente os 2 a 0. A derrota foi dura, mas não definitiva.
Por isso, a campanha de 2019 também conversa diretamente com a tradição gremista no torneio. O Grêmio é um dos clubes que ajudaram a construir a força histórica do mata-mata nacional, e o duelo de 2019 se encaixa como um capítulo importante dentro da história do Grêmio na Copa do Brasil: de um lado, um especialista em jogos grandes; do outro, um Athletico em afirmação nacional.
A remontada no Caldeirão
A volta da semifinal, em 4 de setembro de 2019, foi uma das noites mais marcantes da Arena da Baixada. O Athletico precisava de um jogo praticamente perfeito, e entregou. Nikão abriu o placar aos 16 minutos do primeiro tempo. Logo no início da segunda etapa, Marco Ruben fez o segundo, devolveu o placar agregado e incendiou a decisão.
Com 2 a 2 no agregado, a vaga foi para os pênaltis. Mais uma vez, Santos apareceu. O Athletico converteu suas cinco cobranças com Bruno Guimarães, Lucho González, Nikão, Marcelo Cirino e Marco Ruben. O Grêmio também marcou com Rafael Galhardo, David Braz, Alisson e Matheus Henrique, mas parou na última cobrança: Santos defendeu o chute de Pepê e colocou o Furacão na final.
Aquela classificação mostrou um ponto central do campeão: o Athletico não era apenas um time reativo ou dependente do erro adversário. Quando precisou propor, pressionar e sufocar, conseguiu. Quando precisou sobreviver emocionalmente a uma disputa de pênaltis contra um adversário acostumado a decisões, também conseguiu.
A final
A decisão foi contra o Internacional, campeão da Copa do Brasil de 1992 e finalista novamente depois de uma campanha sólida. O confronto tinha peso histórico para os dois lados. Para o Colorado, era a chance de buscar o bicampeonato e reacender uma memória gloriosa que se conecta à campanha do título da década de 90. Para o Athletico, era a oportunidade de levantar a taça pela primeira vez depois do vice em 2013.
O primeiro jogo da final aconteceu em 11 de setembro de 2019, na Arena da Baixada. O Athletico venceu por 1 a 0, com gol de Bruno Guimarães aos 12 minutos do segundo tempo. A jogada passou por Nikão e Marco Ruben antes de a bola chegar ao volante, que finalizou dentro da área e abriu vantagem para o Furacão.
A volta foi disputada em 18 de setembro, no Beira-Rio. O Internacional precisava reverter a vantagem, mas o Athletico soube jogar a decisão com maturidade. Léo Cittadini abriu o placar aos 23 minutos do primeiro tempo, ampliando a vantagem rubro-negra no agregado. Nico López empatou ainda na etapa inicial, reacendendo o estádio e mantendo o Inter vivo na disputa.
O golpe final veio nos acréscimos. Marcelo Cirino fez uma jogada antológica pela esquerda, escapou da marcação com categoria, invadiu a área e serviu Rony. O atacante finalizou para fazer 2 a 1 no Beira-Rio e confirmar o título. No agregado, Athletico 3 a 1 Internacional. O Furacão era campeão da Copa do Brasil pela primeira vez.
Escalação da finalíssima
No jogo que confirmou o título, o Athletico entrou em campo com Santos; Khellven, Robson Bambu, Léo Pereira e Márcio Azevedo; Wellington, Bruno Guimarães e Léo Cittadini; Nikão, Rony e Marco Ruben. Durante a partida, Madson, Marcelo Cirino e Lucho González também foram acionados. O técnico era Tiago Nunes.
O Internacional, comandado por Odair Hellmann, jogou com Marcelo Lomba; Bruno, Rodrigo Moledo, Victor Cuesta e Uendel; Rodrigo Lindoso, Edenilson e Patrick; Wellington Silva, Nico López e Paolo Guerrero. Nonato, Rafael Sobis e Guilherme Parede entraram no decorrer da decisão.
Gols do Athletico na campanha:
Marco Ruben — 2
Rony — 2
Léo Pereira — 1
Nikão — 1
Bruno Guimarães — 1
Léo Cittadini — 1
Os protagonistas do título
Santos foi o nome dos pênaltis. O goleiro decidiu contra Flamengo e Grêmio e deu ao Athletico uma segurança rara em mata-mata. Sem ele, dificilmente a campanha teria passado por dois confrontos tão equilibrados.
Bruno Guimarães foi o cérebro e o motor do meio-campo. Além de marcar o gol da ida da final contra o Internacional, participou da construção de jogo, deu intensidade à pressão e converteu pênaltis decisivos. O título de 2019 também ajudou a consolidar sua projeção nacional e internacional.
Rony foi o atacante da profundidade, da energia e do gol grande. Marcou no Maracanã contra o Flamengo e fechou a final no Beira-Rio. A imagem do gol após a jogada de Marcelo Cirino virou símbolo da conquista.
Marco Ruben foi o centroavante de momentos-chave. Fez o gol da classificação contra o Fortaleza, marcou na remontada contra o Grêmio e foi peça importante nas combinações ofensivas da final. Nikão, por sua vez, deu talento, força física e capacidade de decisão, com gol na semifinal e participação na jogada do gol de Bruno Guimarães na ida da final.
O elenco campeão ainda teve nomes como Léo Cittadini, Léo Pereira, Wellington, Márcio Azevedo, Khellven, Robson Bambu, Lucho González, Marcelo Cirino, Madson, Jonathan, Lucas Halter, Bruno Nazário, Vitinho, Braian Romero, Thonny Anderson, Erick, Paulo André, Thiago Heleno, Renan Lodi, Tomás Andrade, Caio e Léo. Era um grupo que misturava juventude, intensidade e jogadores experientes, com Tiago Nunes no comando.
Por que o título foi tão marcante
O Athletico campeão da Copa do Brasil de 2019 teve uma campanha de autoridade porque venceu em diferentes cenários. Contra o Fortaleza, precisou ter paciência. Contra o Flamengo, suportou o Maracanã e derrubou um dos times mais fortes do Brasil nos pênaltis. Contra o Grêmio, saiu de um 2 a 0 adverso e fez uma remontada em casa. Contra o Internacional, venceu os dois jogos da final, incluindo a volta no Beira-Rio.
A taça também confirmou a força da Arena da Baixada como ambiente de decisão. Em Curitiba, o Furacão venceu Fortaleza, Grêmio e Internacional, além de empatar com o Flamengo em uma partida duríssima.
Mais do que uma conquista isolada, a Copa do Brasil de 2019 consolidou o Athletico como uma potência copeira do futebol brasileiro. Depois da Sul-Americana de 2018, o clube mostrou que tinha estrutura, elenco, treinador e mentalidade para empilhar noites históricas. O título inédito foi a tradução perfeita desse momento: um Furacão moderno, competitivo, corajoso e frio quando a competição exigia nervos de campeão.
No fim, a campanha permanece como uma das mais emblemáticas do torneio porque reuniu nomes fortes, adversários gigantes, decisões dramáticas e um desfecho cinematográfico. O gol de Rony no Beira-Rio, a jogada de Marcelo Cirino, as defesas de Santos e a liderança técnica de Tiago Nunes formaram uma memória definitiva para a torcida rubro-negra: a noite em que o Furacão atravessou o Brasil e trouxe para Curitiba a taça nacional que ainda faltava.