O título do Criciúma é uma das histórias mais fortes do futebol brasileiro porque reúne tudo o que transforma um mata-mata em lenda: um clube fora do eixo principal, uma campanha invicta, adversários tradicionais pelo caminho, um regulamento dramático, um estádio pulsando e um técnico que começava a se apresentar ao país.
Naquele momento, a Copa do Brasil ainda era uma competição jovem. Criada em 1989, ela tinha tido o Grêmio como primeiro campeão e o Flamengo como vencedor em 1990. Ou seja: nas duas primeiras edições, a taça havia ficado com gigantes nacionais. Em 1991, o Criciúma rompeu essa lógica. O Tigre disputava a Série B do Campeonato Brasileiro, mas construiu uma campanha de campeão com seis vitórias, quatro empates, 14 gols marcados, apenas três sofridos e nenhuma derrota.
Por isso, a conquista é lembrada como a primeira grande zebra campeã da Copa do Brasil. Não foi uma vitória casual, de um jogo isolado. Foi uma campanha completa, sólida e madura, que ajudou a definir a identidade da própria competição. A história da Copa do Brasil seria marcada justamente por esses roteiros: clubes de diferentes regiões, divisões e orçamentos tendo a chance real de derrubar favoritos em duelos eliminatórios.
O contexto do Criciúma em 1991
Era um clube em crescimento, forte em Santa Catarina, respeitado regionalmente, mas distante do peso político, financeiro e midiático dos grandes centros. Estar na Série B tornava o desafio ainda maior, porque a campanha colocaria o Tigre diante de adversários mais badalados e elencos mais conhecidos.
A força daquele time estava na organização. O Criciúma era competitivo, físico, disciplinado e muito difícil de ser batido. A defesa foi o grande pilar da campanha: sofreu apenas três gols em dez partidas. No ataque, a equipe não dependia de um único nome. Grizzo, Vanderlei, Soares, Roberto Cavalo, Jairo Lenzi, Gélson, Vilmar, Zé Roberto e Evandro apareceram em momentos importantes.
A campanha também marcou a ascensão de Luiz Felipe Scolari. Felipão assumiu o time a partir das oitavas de final e comandou a arrancada decisiva. Antes de se tornar um dos treinadores mais conhecidos do país, ele teve no Criciúma uma vitrine que impulsionou. A Copa do Brasil de 1991 apresentou ao Brasil um técnico de mata-mata, intensidade, leitura competitiva e mentalidade vencedora.
Primeira fase: Ubiratan foi o início da caminhada
A campanha começou contra o Ubiratan, do Mato Grosso do Sul. No jogo de ida, em 21 de fevereiro, no estádio Douradão, em Dourados, o Criciúma empatou por 1 a 1. O Ubiratan saiu na frente com Wilson, e Grizzo marcou o gol catarinense já no fim do segundo tempo.
Aquele empate fora de casa foi importante porque o regulamento da época valorizava o gol como visitante. O Criciúma trouxe a decisão para o Heriberto Hülse em condição favorável e confirmou a classificação com uma vitória contundente.
Na volta, em 28 de fevereiro, o Tigre goleou por 4 a 1. O Ubiratan até abriu o placar com Édson logo no começo, mas o Criciúma reagiu com autoridade. Evandro, Grizzo, Zé Roberto e Vanderlei marcaram os gols da virada. O agregado de 5 a 2 colocou o clube catarinense nas oitavas e mostrou uma característica que se repetiria ao longo da campanha: mesmo quando pressionado, o time tinha força emocional para responder.
Oitavas de final: o primeiro gigante eliminado
Nas oitavas, o Criciúma encarou o Atlético-MG, um adversário de camisa pesada e elenco qualificado. Foi nesse confronto que Felipão estreou no comando do Tigre na campanha da Copa do Brasil.
O primeiro jogo, em 10 de março, no Heriberto Hülse, terminou com vitória catarinense por 1 a 0. Vanderlei marcou o gol logo aos 10 minutos do primeiro tempo. O resultado foi miníno mas valioso: o Criciúma saiu na frente contra um dos clubes mais tradicionais do país e ainda manteve a defesa intacta.
A volta aconteceu em 20 de março, no Independência, em Belo Horizonte. Em vez de apenas resistir, o Criciúma venceu novamente por 1 a 0, desta vez com gol de Roberto Cavalo. O Atlético-MG tinha nomes de peso, mas não conseguiu furar o bloqueio catarinense. O agregado de 2 a 0 eliminou o Galo sem que o Tigre sofresse gol no confronto.
Ali, a campanha deixou de ser apenas uma boa participação. O Criciúma já havia derrubado um favorito.
Quartas de final: Goiás caiu com goleada em Criciúma
O adversário seguinte foi o time goiano. A ida, em 18 de abril, no Serra Dourada, terminou 0 a 0. Foi um resultado maduro para o Criciúma, que segurou o empate fora de casa e levou a definição para Santa Catarina.
No Heriberto Hülse, em 25 de abril, o Tigre fez uma de suas atuações mais fortes na competição. Venceu por 3 a 0, com gols de Jairo Lenzi, Gélson e Grizzo, todos no primeiro tempo. A pressão inicial desmontou o Goiás e transformou a classificação em uma demonstração de força.
O confronto reforçou outro ponto central daquela equipe: o Criciúma sabia jogar partidas grandes em casa. O Heriberto Hülse virou um ambiente decisivo, quente e hostil para os visitantes. Quando o time encaixava intensidade, marcação e bola parada, era muito difícil controlá-lo.
Semifinal: Remo foi superado com autoridade
O jogo de ida foi em 12 de maio, no estádio Alacid Nunes, em Belém. Fora de casa, o Tigre venceu por 1 a 0, com gol de Soares no fim do primeiro tempo. Mais uma vez, a equipe mostrou capacidade de competir longe de Santa Catarina, controlar o ambiente adverso e voltar para casa com vantagem.
A volta aconteceu em 19 de maio, no Heriberto Hülse. O Criciúma venceu por 2 a 0. O primeiro gol foi contra, marcado por Chico Monte, e o segundo saiu com Soares. O agregado de 3 a 0 colocou o Tigre na final da Copa do Brasil sem derrota e com a sensação de que a campanha já tinha ultrapassado o limite da surpresa.
A final contra o Grêmio: o favorito era o campeão inaugural
A decisão teve um peso simbólico enorme. Do outro lado estava o Grêmio, campeão da primeira edição da Copa do Brasil, em 1989, e clube acostumado a decisões nacionais. O Tricolor gaúcho era favorito não apenas pelo tamanho da camisa, mas também pelo histórico recente na própria competição. A relação do clube gaúcho com o torneio se tornaria ainda mais forte nas décadas seguintes, como mostra a história dos títulos do Grêmio na competição.
O primeiro jogo da final foi em 30 de maio de 1991, no Olímpico, em Porto Alegre. O Criciúma saiu na frente com Vilmar, aos 14 minutos do primeiro tempo. O Grêmio empatou com Maurício, aos 38 minutos da etapa final. O 1 a 1 deixou tudo aberto, mas deu ao Tigre uma vantagem preciosa: pelo critério do gol fora de casa, um empate sem gols na volta bastaria para o título.
A finalíssima foi disputada em 2 de junho de 1991, no Heriberto Hülse. O Criciúma entrou em campo com Alexandre; Altair, Vilmar, Sarandi e Itá; Roberto Cavalo, Gélson, Grizzo e Soares; Jairo Lenzi e Zé Roberto. Felipão era o técnico.
O Grêmio, comandado por Dino Sani, foi a campo com Sidmar; Chiquinho, João Marcelo, Vílson e Hélcio; Norberto, João Antônio, Donizete Oliveira e Caio; Maurício e Nando Lambada. Darci também entrou durante a partida.
O jogo terminou 0 a 0. Foi uma decisão tensa, de controle emocional, contato físico e pressão constante. Gélson foi expulso pelo Criciúma, Maurício também recebeu vermelho pelo Grêmio, e o placar não saiu do zero. Para o Tigre, bastava. O gol de Vilmar no Olímpico virou o lance mais importante da história do clube. No agregado, 1 a 1. No critério do gol fora de casa, Criciúma campeão da Copa do Brasil.
O Criciúma de 1991 foi a zebra porque contrariou a lógica competitiva da época. Era um clube da Série B, sem o peso nacional dos favoritos, enfrentando adversários mais tradicionais e chegando à final contra o campeão inaugural da própria Copa do Brasil. Mas foi uma zebra construída com futebol, não com acaso.
O time não tropeçou rumo ao título. Passou invicto. Eliminou Atlético-MG com duas vitórias. Despachou o Goiás com goleada. Superou o Remo com placar agregado seguro. Na final, soube jogar o regulamento contra um Grêmio favorito e experiente.
Essa conquista abriu um caminho simbólico para outras campanhas improváveis no torneio. Anos depois, o Juventude também transformaria a Copa do Brasil em palco de uma zebra histórica ao ser campeão em 1999, outro exemplo de como o mata-mata nacional permite que clubes fora do grupo mais badalado escrevam capítulos eternos, mais uma prova de que o torneio sempre reservou espaço para histórias improváveis.
O legado do título
A conquista deu ao Criciúma uma vaga na Copa Libertadores de 1992 e colocou o clube em uma prateleira inédita para o futebol catarinense. O Tigre não ganhou apenas uma taça: conquistou o maior título de sua história e levou Santa Catarina ao topo de uma competição nacional de enorme relevância.
Para Felipão, o título foi um ponto de virada. A partir dali, Luiz Felipe Scolari passou a ser visto como um técnico de competição eliminatória, capaz de montar equipes intensas, organizadas e mentalmente fortes. A carreira que depois teria Grêmio, Palmeiras, Seleção Brasileira, Portugal e tantos outros capítulos importantes começou a ganhar dimensão nacional naquele Criciúma.
Mais de três décadas depois, o título segue vivo porque não depende apenas da nostalgia. Ele explica a essência da Copa do Brasil. O torneio nasceu para cruzar realidades diferentes do futebol brasileiro, e o Criciúma mostrou cedo que esse formato podia produzir histórias gigantes. Em 1991, um time da Série B enfrentou campeões, favoritos e estádios difíceis sem perder uma partida. No fim, levantou a taça contra o Grêmio e transformou uma zebra em legado.