Corte dos Esportes Corte dos Esportes
Início Atletismo Automobilismo Basquete Esportes Olímpicos Futebol Futebol Americano Futsal Handebol Lutas Skate Surf Vôlei Vôlei de Praia Tênis

Criciúma campeão da Copa do Brasil de 1991: o título da primeira grande zebra do torneio

O clube catarinense conquistou de forma invicta, mesmo estando na Série B, derrubou favoritos, venceu o Grêmio na final pelo gol fora de casa e colocou Felipão no mapa dos grandes técnicos do Brasil.

Por Corte dos Esportes · 23/06/2026 · Categoria: Futebol

O título do Criciúma é uma das histórias mais fortes do futebol brasileiro porque reúne tudo o que transforma um mata-mata em lenda: um clube fora do eixo principal, uma campanha invicta, adversários tradicionais pelo caminho, um regulamento dramático, um estádio pulsando e um técnico que começava a se apresentar ao país.

Naquele momento, a Copa do Brasil ainda era uma competição jovem. Criada em 1989, ela tinha tido o Grêmio como primeiro campeão e o Flamengo como vencedor em 1990. Ou seja: nas duas primeiras edições, a taça havia ficado com gigantes nacionais. Em 1991, o Criciúma rompeu essa lógica. O Tigre disputava a Série B do Campeonato Brasileiro, mas construiu uma campanha de campeão com seis vitórias, quatro empates, 14 gols marcados, apenas três sofridos e nenhuma derrota.

Por isso, a conquista é lembrada como a primeira grande zebra campeã da Copa do Brasil. Não foi uma vitória casual, de um jogo isolado. Foi uma campanha completa, sólida e madura, que ajudou a definir a identidade da própria competição. A história da Copa do Brasil seria marcada justamente por esses roteiros: clubes de diferentes regiões, divisões e orçamentos tendo a chance real de derrubar favoritos em duelos eliminatórios.

O contexto do Criciúma em 1991

Era um clube em crescimento, forte em Santa Catarina, respeitado regionalmente, mas distante do peso político, financeiro e midiático dos grandes centros. Estar na Série B tornava o desafio ainda maior, porque a campanha colocaria o Tigre diante de adversários mais badalados e elencos mais conhecidos.

A força daquele time estava na organização. O Criciúma era competitivo, físico, disciplinado e muito difícil de ser batido. A defesa foi o grande pilar da campanha: sofreu apenas três gols em dez partidas. No ataque, a equipe não dependia de um único nome. Grizzo, Vanderlei, Soares, Roberto Cavalo, Jairo Lenzi, Gélson, Vilmar, Zé Roberto e Evandro apareceram em momentos importantes.

A campanha também marcou a ascensão de Luiz Felipe Scolari. Felipão assumiu o time a partir das oitavas de final e comandou a arrancada decisiva. Antes de se tornar um dos treinadores mais conhecidos do país, ele teve no Criciúma uma vitrine que impulsionou. A Copa do Brasil de 1991 apresentou ao Brasil um técnico de mata-mata, intensidade, leitura competitiva e mentalidade vencedora.

Primeira fase: Ubiratan foi o início da caminhada

A campanha começou contra o Ubiratan, do Mato Grosso do Sul. No jogo de ida, em 21 de fevereiro, no estádio Douradão, em Dourados, o Criciúma empatou por 1 a 1. O Ubiratan saiu na frente com Wilson, e Grizzo marcou o gol catarinense já no fim do segundo tempo.

Aquele empate fora de casa foi importante porque o regulamento da época valorizava o gol como visitante. O Criciúma trouxe a decisão para o Heriberto Hülse em condição favorável e confirmou a classificação com uma vitória contundente.

Na volta, em 28 de fevereiro, o Tigre goleou por 4 a 1. O Ubiratan até abriu o placar com Édson logo no começo, mas o Criciúma reagiu com autoridade. Evandro, Grizzo, Zé Roberto e Vanderlei marcaram os gols da virada. O agregado de 5 a 2 colocou o clube catarinense nas oitavas e mostrou uma característica que se repetiria ao longo da campanha: mesmo quando pressionado, o time tinha força emocional para responder.

Oitavas de final: o primeiro gigante eliminado

Nas oitavas, o Criciúma encarou o Atlético-MG, um adversário de camisa pesada e elenco qualificado. Foi nesse confronto que Felipão estreou no comando do Tigre na campanha da Copa do Brasil.

O primeiro jogo, em 10 de março, no Heriberto Hülse, terminou com vitória catarinense por 1 a 0. Vanderlei marcou o gol logo aos 10 minutos do primeiro tempo. O resultado foi miníno mas valioso: o Criciúma saiu na frente contra um dos clubes mais tradicionais do país e ainda manteve a defesa intacta.

A volta aconteceu em 20 de março, no Independência, em Belo Horizonte. Em vez de apenas resistir, o Criciúma venceu novamente por 1 a 0, desta vez com gol de Roberto Cavalo. O Atlético-MG tinha nomes de peso, mas não conseguiu furar o bloqueio catarinense. O agregado de 2 a 0 eliminou o Galo sem que o Tigre sofresse gol no confronto.

Ali, a campanha deixou de ser apenas uma boa participação. O Criciúma já havia derrubado um favorito.

Quartas de final: Goiás caiu com goleada em Criciúma

O adversário seguinte foi o time goiano. A ida, em 18 de abril, no Serra Dourada, terminou 0 a 0. Foi um resultado maduro para o Criciúma, que segurou o empate fora de casa e levou a definição para Santa Catarina.

No Heriberto Hülse, em 25 de abril, o Tigre fez uma de suas atuações mais fortes na competição. Venceu por 3 a 0, com gols de Jairo Lenzi, Gélson e Grizzo, todos no primeiro tempo. A pressão inicial desmontou o Goiás e transformou a classificação em uma demonstração de força.

O confronto reforçou outro ponto central daquela equipe: o Criciúma sabia jogar partidas grandes em casa. O Heriberto Hülse virou um ambiente decisivo, quente e hostil para os visitantes. Quando o time encaixava intensidade, marcação e bola parada, era muito difícil controlá-lo.

Semifinal: Remo foi superado com autoridade

O jogo de ida foi em 12 de maio, no estádio Alacid Nunes, em Belém. Fora de casa, o Tigre venceu por 1 a 0, com gol de Soares no fim do primeiro tempo. Mais uma vez, a equipe mostrou capacidade de competir longe de Santa Catarina, controlar o ambiente adverso e voltar para casa com vantagem.

A volta aconteceu em 19 de maio, no Heriberto Hülse. O Criciúma venceu por 2 a 0. O primeiro gol foi contra, marcado por Chico Monte, e o segundo saiu com Soares. O agregado de 3 a 0 colocou o Tigre na final da Copa do Brasil sem derrota e com a sensação de que a campanha já tinha ultrapassado o limite da surpresa.

A final contra o Grêmio: o favorito era o campeão inaugural

A decisão teve um peso simbólico enorme. Do outro lado estava o Grêmio, campeão da primeira edição da Copa do Brasil, em 1989, e clube acostumado a decisões nacionais. O Tricolor gaúcho era favorito não apenas pelo tamanho da camisa, mas também pelo histórico recente na própria competição. A relação do clube gaúcho com o torneio se tornaria ainda mais forte nas décadas seguintes, como mostra a história dos títulos do Grêmio na competição.

O primeiro jogo da final foi em 30 de maio de 1991, no Olímpico, em Porto Alegre. O Criciúma saiu na frente com Vilmar, aos 14 minutos do primeiro tempo. O Grêmio empatou com Maurício, aos 38 minutos da etapa final. O 1 a 1 deixou tudo aberto, mas deu ao Tigre uma vantagem preciosa: pelo critério do gol fora de casa, um empate sem gols na volta bastaria para o título.

A finalíssima foi disputada em 2 de junho de 1991, no Heriberto Hülse. O Criciúma entrou em campo com Alexandre; Altair, Vilmar, Sarandi e Itá; Roberto Cavalo, Gélson, Grizzo e Soares; Jairo Lenzi e Zé Roberto. Felipão era o técnico.

O Grêmio, comandado por Dino Sani, foi a campo com Sidmar; Chiquinho, João Marcelo, Vílson e Hélcio; Norberto, João Antônio, Donizete Oliveira e Caio; Maurício e Nando Lambada. Darci também entrou durante a partida.

O jogo terminou 0 a 0. Foi uma decisão tensa, de controle emocional, contato físico e pressão constante. Gélson foi expulso pelo Criciúma, Maurício também recebeu vermelho pelo Grêmio, e o placar não saiu do zero. Para o Tigre, bastava. O gol de Vilmar no Olímpico virou o lance mais importante da história do clube. No agregado, 1 a 1. No critério do gol fora de casa, Criciúma campeão da Copa do Brasil.

O Criciúma de 1991 foi a zebra porque contrariou a lógica competitiva da época. Era um clube da Série B, sem o peso nacional dos favoritos, enfrentando adversários mais tradicionais e chegando à final contra o campeão inaugural da própria Copa do Brasil. Mas foi uma zebra construída com futebol, não com acaso.

O time não tropeçou rumo ao título. Passou invicto. Eliminou Atlético-MG com duas vitórias. Despachou o Goiás com goleada. Superou o Remo com placar agregado seguro. Na final, soube jogar o regulamento contra um Grêmio favorito e experiente.

Essa conquista abriu um caminho simbólico para outras campanhas improváveis no torneio. Anos depois, o Juventude também transformaria a Copa do Brasil em palco de uma zebra histórica ao ser campeão em 1999, outro exemplo de como o mata-mata nacional permite que clubes fora do grupo mais badalado escrevam capítulos eternos, mais uma prova de que o torneio sempre reservou espaço para histórias improváveis.

O legado do título

A conquista deu ao Criciúma uma vaga na Copa Libertadores de 1992 e colocou o clube em uma prateleira inédita para o futebol catarinense. O Tigre não ganhou apenas uma taça: conquistou o maior título de sua história e levou Santa Catarina ao topo de uma competição nacional de enorme relevância.

Para Felipão, o título foi um ponto de virada. A partir dali, Luiz Felipe Scolari passou a ser visto como um técnico de competição eliminatória, capaz de montar equipes intensas, organizadas e mentalmente fortes. A carreira que depois teria Grêmio, Palmeiras, Seleção Brasileira, Portugal e tantos outros capítulos importantes começou a ganhar dimensão nacional naquele Criciúma.

Mais de três décadas depois, o título segue vivo porque não depende apenas da nostalgia. Ele explica a essência da Copa do Brasil. O torneio nasceu para cruzar realidades diferentes do futebol brasileiro, e o Criciúma mostrou cedo que esse formato podia produzir histórias gigantes. Em 1991, um time da Série B enfrentou campeões, favoritos e estádios difíceis sem perder uma partida. No fim, levantou a taça contra o Grêmio e transformou uma zebra em legado.