A Inglaterra passou pela RD Congo, mas drama e uma dose pesada de tensão. Em jogo de 16avos da Copa do Mundo de 2026, a seleção inglesa venceu por 2 a 1, de virada, depois de sair atrás logo no início e encontrar pela frente um adversário que confirmou tudo aquilo que já havia mostrado na fase de grupos: coragem, organização, resistência e capacidade de incomodar favoritos.
O roteiro quase virou uma das grandes histórias da Copa. Brian Cipenga abriu o placar para a RD Congo aos 7 minutos, aproveitando uma falha defensiva inglesa e colocando pressão imediata sobre uma seleção acostumada a carregar favoritismo, cobrança e memória histórica. O gol cedo mudou o jogo: a Inglaterra passou a ter a bola, mas também passou a jogar contra o tempo, contra a ansiedade e contra um goleiro inspirado.
A Seleção Africana, que já havia surpreendido na primeira fase e chegava ao mata-mata com uma campanha simbólica para o futebol do continente, não se limitou a defender. A equipe competiu com personalidade, fechou espaços, resistiu no duelo físico e obrigou a Inglaterra a buscar soluções fora do roteiro inicial. Lionel Mpasi, goleiro congolês, foi um dos nomes da partida. Antes da virada, ele fez defesas importantes, sustentou a vantagem por boa parte do jogo e manteve viva a chance de uma classificação histórica.
Kane aparece quando o jogo exige grandeza
O jogo caminhava para virar trauma inglês quando Harry Kane resolveu assumir o peso da decisão. Aos 75 minutos, o capitão empatou de cabeça, completando cruzamento de Anthony Gordon e recolocando a Inglaterra dentro da partida. O gol teve valor técnico, mas principalmente emocional: tirou o time do sufoco, desmontou parte da resistência congolesa e devolveu controle a uma seleção que parecia cada vez mais impaciente.
Onze minutos depois, Kane decidiu de vez. O segundo gol foi um golaço: finalização forte da entrada da área, no alto, sem chance para Mpasi. Era o tipo de lance que separa grandes artilheiros de jogadores apenas eficientes. Kane já havia carregado a Inglaterra em diferentes momentos da competição, mas esse jogo reforçou sua condição de jogador de jogo grande. Não foi apenas uma atuação de centroavante oportunista. Foi uma atuação de capitão que aparece quando a margem de erro desaparece.
Com os dois gols, Kane também ampliou seu peso histórico em Copas. O atacante chegou a 13 gols em Mundiais, marca que o colocou em uma prateleira ainda mais alta no torneio.
A virada que era esperada há décadas
Além da classificação, a vitória teve um componente histórico importante. A Inglaterra não virava um jogo de Copa do Mundo desde a campanha do título de 1966, quando construiu sua maior glória no futebol com o título daquela edição. O dado ajuda a explicar por que a partida contra a RD Congo passou de simples obrigação cumprida para um capítulo simbólico da trajetória inglesa no Mundial.
A conexão com 1966 é inevitável. Aquela seleção campeã ainda define a régua emocional do futebol inglês, e qualquer campanha de Copa passa, de alguma forma, pela comparação com o único título mundial do país. A virada sobre a RD Congo não coloca automaticamente esta geração no mesmo patamar, mas reacende um elemento raro na história recente da Inglaterra: a capacidade de sobreviver a um jogo que começou errado e terminou com autoridade.
O contraste é forte. Durante boa parte das últimas décadas, a Inglaterra foi associada a eliminações doloridas, pênaltis traumáticos, jogos travados e equipes que nem sempre conseguiam transformar talento em controle emocional. Contra a RD Congo, o time esteve perto de reviver esse enredo.
RD Congo sai eliminada, mas valorizada
A derrota congolesa dói justamente porque a classificação pareceu possível durante muito tempo. A equipe marcou cedo, competiu em alto nível e obrigou a Inglaterra a jogar no limite. A atuação de Mpasi foi parte central desse roteiro: enquanto ele acumulava defesas, a RD Congo ganhava confiança e fazia o relógio trabalhar a seu favor.
Mas o futebol de mata-mata costuma ser implacável com quem deixa um favorito vivo. A Inglaterra cresceu no fim, acelerou pelos lados, ocupou melhor a área e encontrou em Kane a peça decisiva. Para a RD Congo, fica a sensação de eliminação amarga, mas também de campanha respeitável. A seleção não foi figurante. Surpreendeu na fase de grupos, chegou ao mata-mata com mérito e caiu apenas depois de exigir uma virada rara dos ingleses.
México no Azteca será outro tipo de teste
A próxima parada da Inglaterra promete ser ainda mais carregada de ambiente. O adversário será o México, que venceu o Equador por 2 a 0 no Azteca, avançou com força e manteve a energia de uma seleção embalada pelo fator casa. A classificação mexicana veio com estádio cheio, clima intenso e uma atmosfera que reforça a mística de um dos palcos mais emblemáticos do futebol mundial.
O confronto coloca frente a frente dois tipos de pressão. A Inglaterra chega com elenco forte, Kane em alta e a confiança de quem sobreviveu a um jogo perigosíssimo. O México chega empurrado pela torcida, pela campanha sólida e por uma relação histórica com o Azteca que transforma qualquer mata-mata em evento nacional. A vitória mexicana sobre o Equador já havia mostrado uma equipe madura, competitiva e capaz de transformar o ambiente em vantagem esportiva; a classificação para as oitavas deixou claro que o próximo desafio inglês não será apenas técnico, mas emocional.
Para a Inglaterra, portanto, a virada contra a RD Congo valeu mais do que a vaga. Valeu como teste de sobrevivência. Valeu como confirmação de Kane. Valeu como quebra de um jejum histórico de viradas em Copas. E valeu como aviso: para seguir sonhando alto, a seleção inglesa precisará repetir no Azteca aquilo que encontrou no fim do jogo contra os congoleses — coragem, frieza e poder de decisão.