O sábado de abertura das oitavas de final da Copa do Brasil de 2026 terminou com uma sequência incomum: três jogos e três empates por 0 a 0.
Os placares tiveram origens diferentes
No clássico entre Vasco e Fluminense, Léo Jardim sustentou o time cruz-maltino quando John Kennedy, Savarino e Canobbio encontraram espaços. Em Belo Horizonte, Atlético-MG e Juventude ficaram separados do gol pelas intervenções de Jandrei, pelas traves e pela dificuldade dos atacantes mineiros em ocupar a área. Em Santos, Marcelo Rangel voltou a ser protagonista, Gabriel Brazão apareceu em um lance espetacular e o poste impediu que uma partida movimentada produzisse aquilo que faltou ao sábado inteiro: um gol.
Foram 270 minutos sem redes balançando. O que aproximou os três jogos foi a incapacidade dos homens de frente de converter momentos favoráveis, enquanto goleiros, zagueiros e traves assumiram papéis que normalmente pertencem aos artilheiros.
Superioridade não revertida em vantagem
Vasco e Fluminense fizeram o 0 a 0 mais travado do sábado, marcado por 36 faltas e longos períodos de bola parada. Ainda assim, o clássico teve um personagem claro: Léo Jardim.
O goleiro do Vasco precisou trabalhar cedo. Aos seis minutos, John Kennedy recebeu de Savarino, cortou para o meio e finalizou de esquerda, obrigando o goleiros vascaíno a fazer uma boa defesa. Pouco depois, Savarino atacou o espaço, limpou a marcação e bateu colocado, fazendo o camisa 1 a trabalhar novamente.
O Fluminense encontrou no trio formado por Savarino, Canobbio e John Kennedy a principal fonte de movimento da partida. Os três alternaram posições e tentaram explorar a profundidade nas costas da defesa vascaína. Canobbio quase marcou ao receber de John Kennedy, entrar na área e bater cruzado, com a bola passando rente à trave.
Antes do intervalo, John Kennedy voltou a finalizar após passe de Canobbio e encontrou novamente Léo Jardim. No começo do segundo tempo, o centroavante recebeu de Lucho Acosta, bateu rasteiro e viu o goleiro vascaíno realizar outra intervenção importante. O Fluminense não produziu uma avalanche ofensiva, mas criou chances suficientes para sair em vantagem. Não saiu porque o último obstáculo funcionou.
Esse recorte também evidencia o contraste entre os ataques. John Kennedy apareceu como apoio, articulador e finalizador. Canobbio atacou a área, enquanto Savarino tentou acelerar por dentro. Do outro lado, David passou boa parte do jogo isolado, Adson teve pouca influência entre as linhas e Andrés Gómez não conseguiu transformar velocidade em conclusão.
O Vasco melhorou depois do intervalo, especialmente quando passou a usar mais o lado direito. Tchê Tchê cabeceou com perigo após cruzamento e Andrés Gómez recebeu de Paulo Henrique, mas mandou por cima. Foram chegadas pontuais, insuficientes para obrigar Fábio a desempenhar o mesmo papel que Léo Jardim havia exercido no outro gol.
O resultado, portanto, teve sabores diferentes. O Fluminense saiu com a sensação de que produziu mais, porém não foi eficiente. O Vasco deixou o Maracanã ainda vivo porque seu goleiro compensou a baixa presença ofensiva e evitou que o clássico se transformasse em uma eliminatória de recuperação.
As traves dominam em Belo Horizonte
Na Arena MRV, o 0 a 0 não nasceu da ausência de oportunidades, mas da combinação entre pouca criatividade no ataque do Atlético-MG, resistência do Juventude e duas bolas na trave.
O Galo começou pressionando a saída do adversário. Dudu recuperou uma bola e finalizou de fora da área, mas Jandrei defendeu sem dificuldade. Aos 21 minutos, Bernard encontrou Renan Lodi dentro da área. O lateral bateu e exigiu uma intervenção mais difícil do goleiro do Juventude.
Jandrei não precisou colecionar defesas espetaculares porque a linha de cinco montada por Maurício Barbieri conseguiu proteger o centro da área. O Atlético circulou, teve posse e ocupou o campo ofensivo, mas transformou pouco desse controle em perigo real.
Mateo Cassierra foi o retrato mais evidente do problema. O centroavante teve participação discreta, recebeu poucas bolas em boas condições e não conseguiu oferecer profundidade. Dudu começou com alguma mobilidade, mas perdeu força. Bernard tentou combinações pela esquerda, especialmente com Renan Lodi, porém não assumiu o comando criativo que o jogo exigia.
A melhor oportunidade atleticana do primeiro tempo não surgiu de um atacante. Maycon lançou Renan Lodi nas costas da defesa, e o lateral apareceu diante do gol, mas finalizou por cima. O lance expôs um Atlético que até conseguia chegar às proximidades da área, mas dependia de movimentos dos laterais e meio-campistas para ocupar zonas que deveriam ter maior presença do centroavante.
O Juventude, por sua vez, não se limitou a esperar. A equipe gaúcha escolheu os momentos para acelerar e esteve perto de punir o mandante. No fim da primeira etapa, Alisson Safira recebeu após uma transição rápida e soltou uma bomba de fora da área. A bola explodiu no travessão de Éverson.
Safira apareceu mais no jogo do que Cassierra, mesmo contando com menos posse e menos volume coletivo. Além do chute no travessão, o atacante esteve perto de receber livre diante do gol no segundo tempo, mas Lyanco realizou um corte decisivo. Em outra chegada, MP cabeceou no alto e obrigou Éverson a defender em dois tempos.
Eduardo Domínguez tentou modificar o ataque do Atlético com Igor Gomes, Cuello, Minda e Preciado. A entrada de Igor Gomes produziu o momento mais perigoso do time. Aos 35 minutos, o meia cobrou falta e acertou a trave de Jandrei. Já nos acréscimos, Cuello cabeceou perto do gol.
O Atlético terminou pressionando, mas sem encontrar o passe final. O Juventude recuou, fechou a área e transformou o empate em um resultado valioso para quem decidirá o confronto no Alfredo Jaconi. As vaias de parte dos mais de 37 mil torcedores na Arena MRV não foram apenas uma reação ao placar. Representaram a frustração com um time que controlou o território, mas não controlou o jogo.
Pressão, goleiro e chance desperdiçada na Vila
Se Vasco x Fluminense foi marcado pelas faltas e Atlético-MG x Juventude pela organização defensiva, Santos x Remo produziu o 0 a 0 mais próximo de fugir do roteiro.
O Peixe entrou com Neymar, Barreal e Gabriel Barbosa no ataque. A proposta era concentrar qualidade técnica no último terço, acelerar pelos lados e usar Neymar tanto aberto pela esquerda quanto em zonas centrais. O time criou. Faltou transformar a criação em gol.
Logo aos três minutos, o camisa 10 santista participou da jogada que terminou em finalização de Gabigol. Marcelo Rangel defendeu em dois tempos. Aos seis, Barreal recebeu de Gabriel Barbosa e acertou a trave. Na sobra, Gabriel Bontempo tentou completar, mas a defesa do Remo bloqueou.
A resposta paraense foi imediata e quase espetacular. Jajá arriscou de muito longe, a bola viajou em direção ao ângulo e Gabriel Brazão conseguiu tocar nela antes de o travessão completar o serviço. Foi uma defesa de alto grau de dificuldade, daquelas que mudam a leitura de um jogo: o Remo tinha menos presença ofensiva, mas esteve a centímetros de abrir o placar com um golaço.
Marcelo Rangel, porém, foi quem trabalhou mais. Aos 14 minutos, Neymar cruzou fechado e obrigou o goleiro a espalmar. Depois, o camisa 10 puxou um contra-ataque, encontrou Gabigol, e o centroavante serviu Barreal. O argentino bateu, a bola desviou e parou novamente no goleiro azulino.
O lance que melhor resumiu a noite santista aconteceu aos 30 minutos. Neymar cobrou escanteio, Lucas Veríssimo desviou e acertou o travessão. A bola quicou perto da linha. Gabigol apareceu diante do gol, mas não conseguiu completar de cabeça.
Não foi apenas uma chance perdida. Foi o momento em que o principal finalizador do Santos poderia transformar o volume coletivo em vantagem e assumir o protagonismo esperado de um atacante acostumado a jogos eliminatórios. O movimento existiu, a oportunidade surgiu e a conclusão falhou.
Gabigol ainda teve participação nas combinações e passou perto do gol no segundo tempo, quando recebeu lançamento de Christian Oliva e bateu de esquerda rente à trave. Também chegou a marcar após cruzamento de Neymar, mas o lance foi anulado porque a bola havia saído antes da assistência.
Neymar permaneceu em campo durante os 90 minutos e foi o jogador responsável por dar sentido à maior parte das ações ofensivas do Santos. Ele buscou jogo, carregou a bola, encontrou companheiros e criou situações de bola parada. Não fez uma atuação apagada, mas também não encontrou a jogada definitiva que a superioridade territorial exigia.
O Remo entendeu o tipo de partida que precisava disputar. Léo Condé protegeu o centro, reduziu os espaços para Gabigol e permitiu que Neymar recebesse em alguns setores menos perigosos. Quando o bloco foi superado, Marcelo Rangel apareceu. O goleiro já vinha se destacando pelo volume de defesas na temporada e voltou a justificar sua importância na Vila Belmiro.
Houve ainda um lance de arbitragem com potencial para alterar o confronto. Zé Ricardo atingiu João Ananias com o cotovelo durante uma disputa aérea. O defensor santista sangrou e precisou de atendimento, mas o jogador do Remo recebeu apenas cartão amarelo.
Três placares iguais, três leituras diferentes
Os empates por 0 a 0 não podem ser colocados no mesmo pacote.
No Maracanã, o Fluminense criou mais, mas parou em Léo Jardim. A linha ofensiva vascaína teve dificuldades para incomodar Fábio, e o goleiro cruz-maltino terminou como responsável direto pela igualdade.
Na Arena MRV, o Atlético-MG teve o controle territorial, mas seu centroavante praticamente não participou. O Juventude ameaçou em transições, Safira acertou o travessão e Jandrei sustentou a resistência quando foi necessário. A trave também negou o gol a Igor Gomes.
Na Vila Belmiro, o jogo foi mais aberto. Barreal e Lucas Veríssimo acertaram a madeira pelo Santos, Jajá parou em uma combinação de Gabriel Brazão com o travessão, e Marcelo Rangel ganhou protagonismo diante de Neymar, Gabigol e companhia.
O ponto em comum não foi apenas a força das defesas. Foi a dificuldade dos atacantes em concluir o trabalho construído antes da área. John Kennedy foi ativo, mas não venceu Léo Jardim. Cassierra quase desapareceu entre os zagueiros do Juventude. Gabigol participou, combinou e finalizou, mas desperdiçou a oportunidade mais clara.
É esse contraste que dá conteúdo ao sábado sem gols. Os goleiros não foram meros espectadores protegidos por partidas fechadas. As traves não apareceram em chutes ocasionais sem perigo. E os atacantes não ficaram fora da narrativa: alguns foram anulados, outros perderam oportunidades e outros participaram sem encontrar o gesto final.
Tudo aberto para os jogos de volta
- Juventude e Atlético-MG voltam a se enfrentar na terça-feira, 4 de agosto, às 19h30, no Alfredo Jaconi.
- Remo e Santos jogam no mesmo dia, às 21h30, no Mangueirão.
- Fluminense e Vasco decidem a vaga na quarta-feira, 5 de agosto, às 21h30, novamente no Maracanã. Quem vencer avança; qualquer novo empate leva a definição para os pênaltis.
A ausência do gol também elimina a possibilidade de administrar uma vantagem. Atlético-MG, Vasco e Santos perderam a oportunidade de transformar o mando da ida em proteção para a volta. Juventude e Remo poderão decidir em casa. Fluminense e Vasco permanecerão no mesmo estádio, mas com o mando tricolor.
O sábado reforçou por que os confrontos das oitavas de final da Copa do Brasil de 2026 já vinham com uma carga de equilíbrio entre os times.
Os atacantes passaram o sábado em branco. Os goleiros e as traves evitaram que o placar contasse toda a história. Agora, com três eliminatórias reduzidas a 90 minutos, a Copa do Brasil cobrará aquilo que faltou nos jogos de ida: precisão quando a vaga estiver ao alcance de um único chute.