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Seleção Brasileira vive crise que vai além dos resultados: falta identificação, referência e pertencimento

Os amistosos da primeira Data FIFA após a Copa do Mundo de 2026 deixaram desempenho para análise, mas a discussão precisa ir além do placar. O desafio de Carlo Ancelotti não é apenas renovar jogadores e montar um time competitivo. É reconstruir uma relação entre a camisa amarela, os atletas e uma torcida que, aos poucos, passou a encontrar nos clubes — principalmente nos grandes europeus — uma identificação que antes pertencia quase naturalmente à Seleção.

Por Corte dos Esportes · 05/10/2026 · Categoria: Futebol
Carlo Ancelotti de terno e gravata junto à delegação brasileira durante a partida.
Carlo Ancelotti terá a missão de reconstruir a Seleção Brasileira. Foto: Bryan Berlin/WikiPortraits.

Os três amistosos disputados entre 25 de setembro e 3 de outubro abriram oficialmente o novo ciclo do Brasil. Foram dois jogos contra a Austrália, com empate por 1 a 1 e vitória por 4 a 2, e uma vitória por 4 a 0 diante da Índia.

Os resultados precisam ser observados. O desempenho também. Mas eles representam apenas uma pequena parte de um problema que já não é exatamente novo: a Seleção perdeu, ao longo dos últimos anos, parte da capacidade de mobilizar o torcedor brasileiro.

E talvez esse seja um desafio muito mais difícil de resolver do que encontrar um lateral, definir um meio-campo ou escolher quem será o camisa 9.

Uma relação construída por gerações

Durante décadas, acompanhar a Seleção Brasileira fazia parte da própria experiência de acompanhar futebol no país.

Há uma geração que viu o tricampeonato mundial. Outra carregou as lembranças do tetra de 1994, viveu a frustração da final de 1998 e, quatro anos depois, comemorou o pentacampeonato de 2002.

Mesmo 2006, lembrada pela enorme expectativa e pelo desfecho frustrante nas quartas de final, tinha algo que hoje parece muito mais difícil de encontrar: personagens.

Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Roberto Carlos, Cafu, Adriano e tantos outros transformavam uma convocação em assunto nacional. Antes deles, Romário havia se tornado uma das grandes referências da história da Seleção Brasileira, especialmente pela ligação construída com a campanha do tetra.

Era um período completamente diferente também na maneira como o torcedor consumia futebol.

Não havia um smartphone permanentemente conectado na mão. O acesso à internet ainda era limitado para uma parcela importante da população. Assistir semanalmente aos principais jogadores brasileiros atuando na Europa não era algo tão simples quanto abrir um aplicativo ou acompanhar uma Champions League praticamente do início ao fim.

A Seleção funcionava, portanto, também como ponto de encontro. Era ali que muitos brasileiros conseguiam ver juntos alguns dos melhores jogadores do país.

O futebol de clubes ocupou esse espaço

Hoje, o cenário mudou completamente.

Real Madrid, Barcelona, Liverpool, Manchester City, Arsenal, Bayern de Munique, Paris Saint-Germain e tantos outros clubes europeus passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros.

O torcedor acompanha o brasileiro que joga na Europa semanalmente. Vê a Champions League, acompanha campeonatos nacionais, assiste aos melhores momentos, segue os jogadores nas redes sociais e tem acesso diário à vida dos grandes protagonistas do futebol.

Isso naturalmente diminuiu uma exclusividade que durante muito tempo pertenceu às seleções.

Os clubes passaram a construir relações cada vez mais fortes com torcedores que sequer vivem no mesmo país. E isso não aconteceu apenas com a geração atual. É um processo que começou há anos e atravessa pelo menos duas ou três gerações de consumidores de futebol.

Ao mesmo tempo, os sucessivos fracassos brasileiros em Copas do Mundo desgastaram a relação com a camisa amarela.

Desde o pentacampeonato de 2002, o Brasil acumulou eliminações que transformaram esperança em frustração. O problema é que, além da ausência do título, também foram desaparecendo personagens capazes de manter a conexão emocional entre uma Copa e outra. Neymar ainda conseguiu ocupar esse espaço.

Neymar foi a última grande referência popular da Seleção

Independentemente de tudo o que envolve sua carreira e sua exposição fora de campo, Neymar conseguiu durante muitos anos manter a curiosidade em torno da Seleção Brasileira.

Mesmo sem conquistar uma Copa do Mundo, tornou-se o maior goleador do Brasil em partidas entre seleções, com 79 gols, ultrapassando os 77 registrados por Pelé nesse critério.

Evidentemente, isso não coloca Neymar na mesma dimensão histórica de Pelé. Futebol não pode ser reduzido exclusivamente a números, principalmente quando estamos falando de um jogador tricampeão mundial e símbolo máximo de uma era da Seleção.

Mas Neymar foi uma referência.

Era um jogador que fazia parte da conversa. Gerava expectativa. Criava debate. Fazia o torcedor querer assistir para descobrir o que poderia acontecer. Esse personagem ainda não apareceu com a mesma força na geração seguinte.

Vinicius Junior e Raphinha, por exemplo, construíram enorme relevância no futebol europeu. São jogadores de alto nível, protagonistas em seus clubes e perfeitamente capazes de decidir partidas importantes.

Mas transformar esse protagonismo europeu em identificação com a Seleção é outra história. A camisa amarela exige a construção de uma trajetória própria.

Foi assim com Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e tantos outros. Suas histórias por clubes eram gigantes, mas existia também uma narrativa particular quando vestiam a Amarelinha. É essa história que a atual geração ainda precisa construir.

O problema não é apenas encontrar bons jogadores

Por isso, a renovação de Carlo Ancelotti não pode ser analisada somente pela qualidade técnica dos convocados.

O treinador precisa descobrir jogadores, formar um núcleo, construir hierarquias e encontrar um estilo de jogo. Mas existe algo menos objetivo e igualmente importante: fazer esses atletas criarem uma relação diferente com a Seleção.

Durante muito tempo, jogar pelo Brasil era tratado como o ponto máximo da carreira de um jogador brasileiro.

Uma convocação significava prestígio internacional. Grandes atuações pela Seleção ajudavam a abrir portas no exterior. Uma Copa do Mundo podia transformar completamente a dimensão de uma carreira. Hoje, a estrutura econômica do futebol mudou.

Para muitos jogadores, chegar a um grande clube europeu, disputar uma Champions League e conquistar estabilidade financeira pode representar uma transformação profissional antes mesmo de uma trajetória relevante pela Seleção.

Isso não significa que os atletas atuais não valorizem a camisa brasileira. Seria uma afirmação impossível de sustentar dessa maneira.

Significa que a Seleção já não ocupa sozinha o lugar simbólico que ocupou em outras gerações. E é justamente esse espaço que precisa ser reconstruído.

Ancelotti terá um ciclo para construir mais do que um time

A vantagem do técnico italiano neste novo processo é a possibilidade de iniciar uma nova caminhada desde o começo.

A CBF apresentou os amistosos contra Austrália e Índia como os primeiros compromissos depois da Copa do Mundo de 2026 e como parte do início da preparação para o próximo ciclo.

Portanto, existe tempo para testar. Existe tempo para renovar. Existe tempo para errar.

Mas também existe uma missão que não aparece em nenhuma prancheta: transformar jogadores importantes de clubes em jogadores marcantes da Seleção. Porque será isso que permanecerá quando suas carreiras terminarem.

Uma Champions League pode eternizar um jogador em determinado clube. Uma grande Copa do Mundo pode eternizá-lo em um país inteiro.

O calendário europeu também aumentou o problema

Há ainda uma dificuldade que não depende exclusivamente de Ancelotti ou da CBF.

Encontrar adversários fortes para amistosos se tornou mais complicado justamente porque as seleções europeias passaram a ocupar boa parte das Datas FIFA com competições oficiais.

A UEFA Nations League foi criada, segundo a própria UEFA, também com o objetivo de reduzir amistosos considerados pouco relevantes e criar confrontos competitivos entre seleções de níveis semelhantes. Na edição 2026/27, por exemplo, a fase de liga ocupa datas entre setembro e novembro de 2026.

Enquanto europeus enfrentam europeus em partidas valendo pontos, o Brasil precisa encontrar alternativas.

Nesta primeira janela depois da Copa, foram dois jogos consecutivos contra a Austrália e depois um confronto com a Índia.

Com todo o respeito esportivo aos adversários, existe uma diferença evidente entre esse tipo de preparação e uma sequência frequente de partidas contra seleções que historicamente disputam as fases finais das grandes competições.

E aí existe também uma responsabilidade da CBF: dentro das limitações do calendário internacional, encontrar maneiras de oferecer à Seleção jogos que provoquem o time, despertem interesse e ajudem a reconstruir a importância desses encontros.

Porque amistosos não servem apenas para o treinador testar jogadores. Eles também precisam ajudar a torcida a voltar a querer assistir.

Reconectar a Seleção ao brasileiro talvez seja o maior desafio

O Brasil terminou essa sequência com duas vitórias e um empate. Ancelotti ganhou informações, utilizou diferentes jogadores e começou um novo processo.

Mas talvez o maior problema da Seleção esteja fora das quatro linhas.

As gerações que viveram grandes conquistas olham para trás e encontram Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Rivelino, Tostão, Pelé e tantas outras referências. Existe nostalgia porque existe memória.

As gerações mais novas, por outro lado, cresceram acompanhando muito mais futebol de clubes, e estrelas brasileiras atuando semanalmente no exterior — enquanto viram a Seleção acumular eliminações em Copas.

É uma combinação perigosa para qualquer instituição esportiva que depende também de identificação.

Carlo Ancelotti terá que renovar a equipe, encontrar jogadores, formar um padrão e construir um time capaz de competir no mais alto nível. Mas o trabalho talvez seja ainda maior.

A Seleção precisa voltar a produzir referências.

Precisa fazer o jogador entender que uma trajetória marcante com a camisa amarela pode definir como ele será lembrado depois da aposentadoria.

E precisa convencer novamente o torcedor de que parar para assistir ao Brasil continua valendo a pena.

Porque recuperar a Seleção Brasileira não significa apenas voltar a ganhar.

Significa voltar a fazer o brasileiro querer acompanhar o caminho até a próxima conquista.