O Spaten Fight Night 3 chega ao Pacaembu, em São Paulo, neste sábado, 29 de agosto de 2026, com um card que tenta ir além da lógica de simplesmente colocar nomes conhecidos frente a frente. Boxe, judô e jiu-jítsu dividem a mesma noite, mas é na luta principal que está concentrada a maior carga histórica do evento: Maurício “Shogun” Rua contra Glover Teixeira.
São dois ex-campeões do UFC, dois brasileiros que chegaram ao topo de uma das divisões mais tradicionais do MMA mundial e dois veteranos cujas carreiras profissionais começaram ainda no início dos anos 2000. Shogun entra no combate aos 44 anos, com cartel de 27 vitórias, 14 derrotas e um empate no MMA. Glover, aos 46, encerrou sua trajetória nas artes marciais mistas com 33 vitórias e nove derrotas. Curiosamente, ambos acumulam exatamente 42 lutas profissionais de MMA.
Mas reduzir o confronto a um encontro de ex-lutadores seria ignorar o tamanho das duas trajetórias. Shogun atravessou a era do PRIDE no Japão, conquistou um dos Grand Prix mais duros da história da organização e depois se tornou campeão do UFC. Glover demorou anos para chegar ao Ultimate, permaneceu competitivo depois dos 40 e alcançou o cinturão quando boa parte dos atletas de elite de sua geração já havia encerrado a carreira.
A luta no Spaten Fight Night fecha um círculo que começou a ser desenhado ainda em 2012, quando o UFC chegou a estudar um confronto entre os brasileiros. Quatorze anos depois, eles finalmente ficam frente a frente — não no octógono, mas em um ringue de boxe.
Shogun: do PRIDE japonês ao cinturão do UFC
Para entender o peso do nome de Maurício Shogun, é preciso voltar ao período em que o PRIDE Fighting Championships disputava espaço com o UFC como principal organização de MMA do planeta.
Nascido em 25 de novembro de 1981, cresceu esportivamente na Chute Boxe, em Curitiba, equipe que marcou uma época das artes marciais brasileiras. Ele chegou ao PRIDE em 2003 e venceu Akira Shoji por nocaute em sua estreia na organização japonesa. A partir dali, construiu uma trajetória que o transformou em um dos maiores símbolos daquela geração.
Seu auge no Japão veio em 2005.
Naquele ano, Shogun entrou no Grand Prix dos médios do PRIDE — divisão que, apesar do nome utilizado pela organização japonesa, reunia atletas de porte semelhante aos meio-pesados do UFC. O caminho até o título foi extraordinário pela sequência de adversários.
Primeiro, derrotou Quinton “Rampage” Jackson por nocaute técnico no primeiro round. Depois, enfrentou Rogério “Minotouro” Nogueira nas quartas de final e venceu por decisão unânime em uma luta que se tornou uma das mais lembradas daquela fase do MMA.
Na noite decisiva do PRIDE Final Conflict 2005, em 28 de agosto, Shogun precisou lutar duas vezes. Na semifinal, nocauteou Alistair Overeem no primeiro round. Depois voltou ao ringue para disputar a final contra Ricardo Arona e também resolveu o combate no primeiro assalto, conquistando o Grand Prix.
A dimensão daquela campanha aparece ainda melhor quando se observa a passagem completa do brasileiro pelo PRIDE: Shogun teve retrospecto de 12 vitórias e uma derrota na organização, sendo que aquela derrota ocorreu em uma luta contra Mark Coleman encerrada após uma lesão no braço do brasileiro.
Foi naquele ambiente que Shogun consolidou a imagem de lutador agressivo, disposto a trabalhar em curta distância e a manter pressão ofensiva. O regulamento do PRIDE permitia recursos que não existem no boxe e que também não são admitidos sob as regras atuais do MMA, tornando aquela fase muito diferente do desafio que ele terá diante de Glover.
Na trajetória de Shogun, essa passagem pelo Japão ajuda a entender por que seu nome ocupa um lugar tão importante na história do esporte. O brasileiro fez parte de uma geração em que o PRIDE dividia o protagonismo mundial com o UFC e ajudou a consolidar a presença do país entre as grandes potências das artes marciais, cenário que também aparece na história dos brasileiros do PRIDE ao UFC e da evolução do MMA.
Do Japão ao UFC: Shogun também chegou ao topo do Ultimate
Ele estreou no UFC em setembro de 2007, contra Forrest Griffin, e foi derrotado por finalização no terceiro round. O início difícil não impediu uma reconstrução.
Depois de vencer Mark Coleman e nocautear Chuck Liddell, o brasileiro recebeu a oportunidade de disputar o cinturão dos meio-pesados contra Lyoto Machida no UFC 104, em outubro de 2009. Machida venceu por decisão unânime, em um resultado que provocou grande debate na época.
A revanche aconteceu no UFC 113, em maio de 2010.
Desta vez, Shogun não deixou a definição para os juízes. Derrubou Machida e encerrou o combate com golpes ainda no primeiro round, tornando-se campeão dos meio-pesados do UFC. O cinturão colocou oficialmente o brasileiro no grupo restrito de atletas que alcançaram o topo tanto no PRIDE quanto no Ultimate.
O reinado terminou na primeira defesa. Em março de 2011, no UFC 128, Shogun enfrentou Jon Jones e perdeu o título por nocaute técnico.
Ainda assim, permaneceu no UFC por muitos anos. Sua carreira profissional no MMA terminaria somente em janeiro de 2023, aos 41 anos, quando foi derrotado por Ihor Potieria no UFC 283, no Rio de Janeiro. O cartel final ficou em 27 vitórias, 14 derrotas e um empate, com 21 triunfos registrados por nocaute ou nocaute técnico.
Em 2024, Shogun foi incluído no Hall da Fama do UFC na categoria “Pioneer Era”, reconhecimento à importância histórica de sua carreira.
Glover Teixeira: uma trajetória diferente para chegar ao mesmo cinturão
Se Shogun virou estrela internacional ainda jovem, Glover Teixeira percorreu um caminho bastante distinto.
Nascido em 28 de outubro de 1979, Glover tem 46 anos na data do Spaten Fight Night 3. Seu cartel profissional no MMA terminou em 33 vitórias e nove derrotas, com 18 triunfos por nocaute ou nocaute técnico e dez por finalização. Ou seja: 28 das 33 vitórias de Glover aconteceram antes da decisão dos juízes.
Ele iniciou a carreira profissional em 2002, mas só chegou ao UFC uma década depois. A estreia aconteceu em maio de 2012, quando finalizou Kyle Kingsbury no primeiro round no UFC 146.
A ascensão foi rápida. Glover conquistou espaço na divisão dos meio-pesados e chegou à primeira disputa de cinturão em 2014, contra Jon Jones, no UFC 172. Não conseguiu tirar o título do norte-americano.
Depois, a carreira passou por altos e baixos, mas a reta final é justamente uma das partes que diferenciam sua trajetória.
Quando muitos atletas já estariam em processo de aposentadoria, Glover voltou a crescer na divisão. Emplacou seis vitórias consecutivas e conquistou uma nova oportunidade pelo cinturão.
Em outubro de 2021, no UFC 267, enfrentou Jan Blachowicz em Abu Dhabi. Glover levou a luta para o terreno em que sempre foi particularmente perigoso, avançou no grappling e finalizou o polonês com um mata-leão no segundo round. Aos 42 anos, tornou-se campeão dos meio-pesados e o atleta mais velho da história do UFC a conquistar um cinturão pela primeira vez.
A primeira defesa aconteceu em junho de 2022, contra Jiri Prochazka, no UFC 275. Em uma luta marcada por alternância de domínio, Glover acabou finalizado com um mata-leão a 28 segundos do fim do quinto round.
Ainda teria uma última oportunidade.
Em janeiro de 2023, disputou novamente o cinturão, desta vez contra Jamahal Hill no Rio de Janeiro. Glover perdeu por decisão unânime depois de cinco rounds e anunciou a aposentadoria do MMA. Seu cartel ficou congelado em 33-9.
A carreira de Shogun e Glover também se cruza em um ponto central: ambos chegaram ao cinturão dos meio-pesados do UFC, ainda que em momentos completamente diferentes. Shogun conquistou o título em 2010, enquanto Glover alcançou o topo mais de uma década depois, em 2021.
Aposentadoria do UFC na mesma noite
Há um detalhe que torna o duelo do Spaten Fight Night ainda mais simbólico: Shogun e Glover fizeram suas últimas lutas no MMA profissional exatamente no mesmo evento.
Foi no UFC 283, em 21 de janeiro de 2023, no Rio de Janeiro.
Shogun enfrentou Ihor Potieria e perdeu por nocaute técnico no primeiro round. Horas depois, Glover entrou no mesmo octógono para disputar o cinturão contra Jamahal Hill, foi derrotado por decisão e também anunciou a aposentadoria.
Na prática, dois campeões brasileiros dos meio-pesados deixaram o MMA competitivo na mesma noite. Mais de três anos depois, retornam juntos para uma luta de boxe.
A luta que o UFC tentou fazer em 2012
Shogun x Glover também carrega uma história que ficou pendente.
Naquele momento, Glover acabava de chegar ao UFC e havia vencido Kyle Kingsbury em sua estreia. Shogun já era ex-campeão da organização e seguia entre os principais nomes dos meio-pesados.
Depois de uma lesão tirar Thiago Silva de uma luta contra Shogun, o UFC estudou colocar Glover como substituto.
Dana White declarou publicamente na época que a equipe de Shogun havia rejeitado o combate. A história ganhou repercussão ainda maior quando o então presidente do UFC afirmou que o brasileiro preferiria ser cortado da organização a aceitar o confronto.
Dias depois, Shogun apresentou outra versão.
O ex-campeão disse que jamais havia afirmado que deixaria o UFC para não enfrentar Glover. Segundo sua explicação, a equipe avaliou que o confronto não fazia sentido naquele momento porque Glover era recém-chegado à organização e uma vitória não aproximaria Shogun de outra disputa de cinturão.
Em 2026, ao falar novamente sobre aquela situação antes do Spaten Fight Night, Shogun voltou a tratar a decisão como estratégica.
Assim, o duelo que não aconteceu quando ambos estavam ativos na elite do MMA surge 14 anos depois, com regras, pesos e contexto completamente diferentes.
Boxe muda completamente a lógica da luta
O passado no MMA ajuda a vender o confronto, mas não define automaticamente o que acontecerá no ringue.
A luta do Spaten Fight Night será de boxe. Isso significa que boa parte das ferramentas utilizadas pelos dois durante suas carreiras simplesmente não estará disponível.
Shogun construiu fama combinando golpes de mão, chutes, joelhadas, quedas e trabalho no solo. Glover, embora tenha mostrado poder de nocaute ao longo da carreira, também alcançou enorme parte de seus melhores resultados por meio do wrestling, do controle posicional e das finalizações.
No boxe, tudo isso desaparece. Sobram as mãos, a movimentação, a defesa, o posicionamento e a administração de distância.
O regulamento prevê oito rounds de dois minutos, com um minuto de intervalo entre eles. O limite estabelecido é de 110 kg, com luvas de 12 onças. A vitória pode acontecer por nocaute, nocaute técnico, decisão dos três juízes ou desclassificação.
Na pesagem oficial, Glover registrou 109,2 kg. Shogun marcou 104,7 kg.
Também chama atenção o aumento de peso em relação à categoria em que fizeram história. No UFC, ambos foram campeões entre os meio-pesados, divisão com limite de aproximadamente 93 kg. Para o Spaten Fight Night, aparecem acima dos 100 kg.
Ao todo, são 84 lutas profissionais de MMA entre os dois, além de dois cinturões do UFC e um Grand Prix do PRIDE.
Poatan estará no córner de Glover
Outro elemento liga a luta principal à geração atual do MMA brasileiro.
Glover Teixeira terá Alex Pereira, o Poatan, em seu córner no Spaten Fight Night. A relação entre os dois ultrapassa uma parceria ocasional: Glover passou a exercer papel importante na equipe e na preparação de Poatan durante a trajetória do ex-kickboxer no MMA. Antes do evento, Teixeira afirmou que Poatan também teve participação em sua motivação para retornar às competições.
Glover segue treinando mesmo depois da aposentadoria do MMA e continua envolvido diretamente com atletas em atividade. O confronto com Shogun, portanto, não representa uma volta regular ao circuito do UFC, mas uma mudança temporária de ambiente competitivo.
Já Shogun declarou antes do evento que considera o combate contra Glover provavelmente sua última luta. Ele havia encerrado a carreira no MMA em 2023 e retornou especificamente para o confronto.
Luta com cinturão em jogo
O outro combate de boxe do card possui uma natureza completamente diferente da luta principal.
Luan Medeiros enfrenta o argentino Juan Cruz em uma luta profissional de dez rounds de três minutos, válida pelo cinturão WBA Fedelatin dos pesos-leves.
Luan chega invicto ao maior compromisso de sua carreira profissional. O brasileiro tem sete vitórias em sete lutas, quatro delas por nocaute, desde que estreou no profissional em 2023. Juan Cruz soma dez vitórias, quatro derrotas e um empate.
O brasileiro também carrega experiência extensa no boxe amador. Antes de migrar definitivamente para o profissional, estimou ter disputado cerca de 150 lutas amadoras, com passagens pelo Time Brasil e pelo Exército Brasileiro.
No peso oficial para a luta, Luan marcou 60,9 kg, enquanto Juan Cruz registrou 61,1 kg. O limite dos leves é de 61,2 kg. A luta será disputada com luvas de oito onças.
Reedição de final olímpica
No judô, uma das principais atrações do Spaten Fight Night reúne as duas finalistas olímpicas da categoria acima de 78 kg em Paris 2024.
Beatriz Souza reencontra Raz Hershko depois de conquistar o ouro olímpico justamente contra a israelense.
O retrospecto oficial é amplamente favorável à brasileira: antes do confronto deste sábado, Bia venceu os seis encontros oficiais entre as duas. A vitória mais importante aconteceu na final dos Jogos de Paris, quando marcou um waza-ari com o o-soto-gari.
Na pesagem para a luta Bia registrou 133 kg e Hershko, 118 kg.
O combate seguirá as regras olímpicas do judô, com quatro minutos regulamentares e Golden Score em caso de empate. Ippon encerra imediatamente a luta; dois waza-ari equivalem a um ippon. O yuko, reincorporado às regras internacionais em 2025, também poderá ser utilizado na pontuação.
A presença de Beatriz Souza e Rafaela Silva amplia ainda mais o peso esportivo do Spaten Fight Night 3. As duas brasileiras já alcançaram o ponto máximo de suas carreiras com títulos olímpicos e representam uma modalidade que historicamente ocupa posição de destaque no esporte nacional. O contexto das conquistas, dos grandes nomes e da tradição brasileira nos Jogos aparece também na matéria sobre a história do judô no Brasil e sua tradição olímpica.
Combate reúne outra campeã olímpica
O segundo duelo de judô também possui medalhistas olímpicas.
Rafaela Silva, campeã dos Jogos do Rio em 2016, encara Prisca Awiti, mexicana que conquistou a medalha de prata em Paris 2024.
O confronto será disputado na categoria até 63 kg. Na pesagem, Rafaela registrou 62,6 kg e Awiti marcou 62,8 kg. Segundo a apresentação oficial do combate, será o primeiro encontro entre as duas.
O terceiro capítulo de uma rivalidade
O card ainda terá jiu-jítsu sem quimono com Nicholas Meregali e Felipe “Preguiça” Pena.
Meregali chega ao confronto com vantagem de 2 a 0 no histórico direto. Em 2018, venceu Preguiça no Mundial em luta com quimono, por estrangulamento ezequiel. Cinco anos mais tarde, em 2023, voltou a derrotá-lo, desta vez no No-Gi, com um mata-leão.
O terceiro encontro será disputado sem quimono e com um formato próprio de três rounds de cinco minutos.
Meregali chega ao evento com cartel divulgado de 86 vitórias e 16 derrotas e currículo que inclui três títulos mundiais na faixa-preta pela IBJJF.
O sistema adotado no Spaten utiliza pontuação por posições — quatro pontos para montada e costas, três pela passagem de guarda e dois por queda, raspagem ou joelho na barriga — mas transforma o desempenho de cada assalto em placares de 10-9 ou 10-8 para os juízes, aproximando a leitura externa do modelo utilizado em esportes de combate por rounds.
Card completo do Spaten Fight Night 3
- Nicholas Meregali x Felipe Preguiça — jiu-jítsu sem quimono
- Rafaela Silva x Prisca Awiti — judô, até 63 kg
- Beatriz Souza x Raz Hershko — judô, acima de 78 kg
- Luan Medeiros x Juan Cruz — boxe, peso-leve, pelo cinturão WBA Fedelatin
- Maurício Shogun x Glover Teixeira — boxe, até 110 kg
Onde assistir ao evento
O Combate inicia a cobertura às 21h, pelo horário de Brasília, e transmite o card completo a partir das 22h. A ge tv e o ge entram ao vivo a partir da segunda luta do card. A TV Globo exibe o evento depois do programa Estrelas da Casa.
A luta que vale mais pela história
Não há cinturão do UFC em disputa, ranking de MMA envolvido ou possibilidade de o vencedor voltar a ser considerado o melhor meio-pesado do mundo.
A relevância de Shogun x Glover está em outro lugar.
Shogun representa diretamente uma fase em que o centro do MMA mundial também passava pelo Japão. Entrou no PRIDE em 2003, venceu um Grand Prix histórico em 2005, migrou para o UFC, conquistou outro cinturão e permaneceu na elite durante duas décadas.
Glover representa uma trajetória quase inversa. Chegou mais tarde ao grande palco, precisou esperar até 2012 para estrear no UFC e só alcançou seu maior título aos 42 anos, quando se tornou o campeão de primeira viagem mais velho da história da organização.
Eles viveram momentos diferentes de auge, passaram 11 anos simultaneamente sob contrato com o UFC e, mesmo assim, nunca se enfrentaram oficialmente.
Fizeram suas despedidas do MMA na mesma noite em janeiro de 2023.
Agora retornam juntos.
A mudança para o boxe impede que o duelo responda à velha pergunta sobre quem teria vencido um confronto de MMA no auge. O cenário de 2026 é outro: Shogun tem 44 anos, Glover tem 46, ambos estão acima de 100 kg e uma grande parcela das armas que os transformaram em campeões não poderá ser utilizada.
Isso, porém, não reduz o peso histórico do encontro.
É essa longa estrada — mais do que uma rivalidade artificial ou um cinturão simbólico — que transforma Shogun x Glover na luta central do Spaten Fight Night 3.