O tênis mundial se despediu de um de seus grandes campeões na terça-feira, 27 de outubro de 2026. Stan Wawrinka entrou em quadra pela última vez como tenista profissional no Swiss Indoors Basel, torneio ATP 500 disputado na Basileia, na Suíça. Diante de sua torcida, o tricampeão de Grand Slam foi derrotado pelo tcheco Jiri Lehecka por 2 sets a 0, pela primeira rodada da competição.
A derrota encerrou oficialmente uma carreira que atravessou mais de duas décadas e colocou Wawrinka entre os protagonistas de uma das gerações mais competitivas da história do tênis masculino. O suíço conquistou o Australian Open de 2014, Roland Garros de 2015 e o US Open de 2016, superando alguns dos maiores nomes do esporte em decisões memoráveis.
Mas a história de Wawrinka vai muito além dos três títulos de Majors. Sua trajetória reúne uma ascensão relativamente tardia ao topo, rivalidades históricas, uma das esquerdas de uma mão mais admiradas do circuito e uma capacidade extraordinária de competir em grandes partidas. A despedida na Basileia foi o último capítulo de uma carreira construída com perseverança e dedicação.
Derrota na estréia e despedida emocionante
O confronto contra Jiri Lehecka aconteceu na quadra central da St. Jakobshalle, diante de 9.200 espectadores. Wawrinka enfrentou o oitavo cabeça de chave do torneio e conseguiu manter a disputa equilibrada, especialmente no segundo set, decidido apenas no tie-break.
No primeiro set, Lehecka aproveitou a oportunidade para fechar a parcial por 7/5. Na sequência, Wawrinka voltou a competir ponto a ponto e chegou a estar a dois pontos de empatar a partida em sets. O tcheco, porém, sustentou seu desempenho nos momentos decisivos e venceu o desempate por 7 a 2.
Mesmo sem a vitória, o suíço recebeu uma longa manifestação de carinho da torcida. O público acompanhou seus últimos golpes de esquerda, levantou-se em diferentes momentos da partida e encerrou a noite com aplausos e homenagens.
A despedida teve ainda uma preparação especial. Na segunda-feira, 26 de outubro, a organização do Swiss Indoors Basel realizou uma cerimônia dedicada ao jogador, com a presença de familiares e homenagens à sua trajetória. Foi a 19ª participação de Wawrinka no torneio, no qual havia alcançado as semifinais em 2006 e 2011.
Ao deixar a quadra na terça-feira, Wawrinka encerrou sua participação no circuito profissional em casa, diante dos torcedores que acompanharam sua evolução desde os primeiros anos de carreira.
O torneio da despedida
O Swiss Indoors Basel é um dos torneios tradicionais do calendário europeu de tênis. Criado em 1970, o evento acontece na cidade suíça da Basileia e integra a categoria ATP 500 desde 2009.
A história do torneio está diretamente associada a Roger Federer. Nascido na Basileia, Federer conquistou o título dez vezes, alcançando sua última vitória em 2019. O evento também recebeu nomes históricos como Björn Borg, John McEnroe, Ivan Lendl, Boris Becker, Stefan Edberg e Pete Sampras.
Para Wawrinka, o Swiss Indoors também tinha um significado especial. Embora nunca tenha conquistado o troféu de simples, participou de 19 edições e escolheu justamente a competição disputada em seu país para encerrar a carreira.
A temporada de despedida
A aposentadoria não foi uma decisão inesperada. Em 19 de dezembro de 2025, Wawrinka anunciou que 2026 seria seu último ano no circuito profissional, iniciando uma temporada dedicada também às despedidas dos torneios que marcaram sua trajetória.
O suíço continuou competindo contra jogadores de diferentes gerações. No Australian Open de 2026, alcançou a terceira rodada.
Na ocasião, aos 40 anos, tornou-se o tenista mais velho a chegar à terceira rodada do Australian Open desde Ken Rosewall, que alcançou essa fase aos 44 anos em 1978.
Outro momento importante aconteceu no torneio de Lyon, na França, poucos dias antes da despedida definitiva. Em 21 de outubro, Wawrinka derrotou o espanhol Martín Landaluce por 2 sets conquistando a última vitória de sua carreira profissional.
A sequência terminou com a derrota para Flavio Cobolli nas oitavas de final de Lyon e, posteriormente, com o confronto definitivo contra Lehecka na Basileia.
Quem é o suíço que conquistou três Grand Slams
Nascido em 28 de março de 1985, Stanislas Wawrinka se transformou em um dos principais representantes do tênis suíço e um dos grandes nomes de sua geração.
Diferentemente de outros campeões que alcançaram o auge ainda muito jovens, Wawrinka construiu uma carreira de evolução progressiva. Seus principais títulos de Grand Slam vieram depois dos 28 anos, quando já acumulava uma década de experiência no circuito profissional.
Sua trajetória começou a ganhar destaque internacional em 2003. Naquele ano, conquistou o título juvenil de Roland Garros e fez sua estreia no circuito principal da ATP em Gstaad, na Suíça.
Em 2005, chegou à primeira final de um torneio ATP, também em Gstaad. O primeiro título profissional de simples veio em 2006, no torneio de Umag, na Croácia.
Durante os anos seguintes, consolidou-se entre os jogadores competitivos do circuito. Entretanto, ainda faltava transformar bons resultados em grandes conquistas nos eventos mais importantes.
A mudança aconteceu especialmente a partir de 2013, quando passou a trabalhar com o treinador sueco Magnus Norman. A parceria foi fundamental para elevar o nível de seu jogo, sua consistência física e sua confiança nas partidas decisivas.
O primeiro Grand Slam
A conquista do Australian Open de 2014 mudou definitivamente a posição de Stan Wawrinka na história do tênis.
O suíço chegou à competição tentando superar os melhores jogadores do mundo e produziu uma campanha memorável em Melbourne.
Nas quartas de final, derrotou Novak Djokovic em cinco sets, encerrando uma batalha decidida por 9/7 na última parcial. O resultado foi especialmente importante porque Djokovic era um dos principais favoritos ao título.
Na semifinal, Wawrinka venceu Tomas Berdych e garantiu sua primeira decisão de Grand Slam.
O adversário na final foi Rafael Nadal, que também atravessava um período de grande protagonismo no circuito.
Wawrinka venceu por 3 sets a 1, conquistando seu primeiro título de Grand Slam.
A campanha teve impacto imediato na carreira do suíço, que alcançou o terceiro lugar do ranking mundial em janeiro daquele ano, sua melhor posição na ATP.
A conquista também marcou o início do período mais vitorioso de sua trajetória.
A vitória histórica sobre Novak Djokovic
Se o Australian Open de 2014 colocou Wawrinka entre os campeões de Grand Slam, Roland Garros de 2015 confirmou que o resultado não havia sido um episódio isolado.
O torneio francês apresentou uma das atuações mais emblemáticas da carreira do suíço, especialmente na decisão contra Novak Djokovic.
O sérvio chegou à final depois de eliminar Rafael Nadal nas quartas de final e Andy Murray na semifinal, em uma campanha que o colocava como favorito à conquista.
Wawrinka, entretanto, apresentou um desempenho ofensivo extraordinário.
Depois de perder o primeiro set, encontrou respostas com golpes profundos, agressividade nas devoluções e sua característica esquerda de uma mão.
O suíço venceu por 4/6, 6/4, 6/3 e 6/4, conquistando o segundo título de Grand Slam.
A vitória foi marcante porque aconteceu contra um Djokovic que dominava o circuito mundial. Wawrinka conseguiu superar o sérvio em um dos palcos mais importantes do esporte.
O título também confirmou sua capacidade de vencer grandes torneios em superfícies diferentes: quadra dura na Austrália e saibro na França.
O terceiro Grand Slam e mais uma vitória sobre Djokovic
A terceira conquista de Majors de Wawrinka aconteceu no US Open de 2016, em Nova York.
A campanha apresentou diferentes desafios. Um dos momentos mais importantes ocorreu na terceira rodada, diante do britânico Daniel Evans.
Wawrinka precisou salvar um match point antes de conseguir vencer uma partida de cinco sets. A recuperação manteve viva sua campanha e abriu caminho para mais uma decisão histórica.
Na final, novamente encontrou Novak Djokovic.
O sérvio venceu o primeiro set no tie-break, mas Wawrinka reagiu e tomou o controle das parciais seguintes.
O suíço conquistou o título com vitória por 6/7 (1-7), 6/4, 7/5 e 6/3.
Na decisão, produziu 46 golpes vencedores, estatística que ajuda a dimensionar a intensidade de seu jogo ofensivo.
Com o resultado, Wawrinka alcançou uma marca especial: venceu suas três primeiras finais de Grand Slam, todas contra adversários que ocupavam a liderança do ranking mundial.
O US Open de 2016 também foi seu terceiro e último título de Grand Slam.
Os principais títulos e conquistas
A carreira de Wawrinka reuniu conquistas em diferentes níveis do tênis profissional.
- Australian Open: campeão em 2014
- Roland Garros: campeão em 2015
- US Open: campeão em 2016
- Masters 1000 de Monte Carlo: campeão em 2014
- Jogos Olímpicos de Pequim: medalha de ouro nas duplas ao lado de Federer.
- Copa Davis: campeão em 2014 pela seleção da Suíça.
- Ranking da ATP: terceiro lugar mundial, alcançado em janeiro de 2014.
- Títulos de simples na ATP: 16 conquistas.
- Último título de simples: ATP de Genebra, em 2017.
Além dos três títulos de Grand Slam, Wawrinka também alcançou a final de Roland Garros em 2017, quando terminou como vice-campeão diante de Rafael Nadal.
Parceria histórica pelo tênis suíço
A relação esportiva entre Stan Wawrinka e Roger Federer ocupa um capítulo importante da história do tênis nacional.
Enquanto Federer se estabeleceu como um dos maiores campeões de todos os tempos, Wawrinka construiu sua própria trajetória e demonstrou capacidade de competir no mais alto nível.
Os dois também compartilharam conquistas de enorme importância para o país.
Nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, conquistaram a medalha de ouro nas duplas masculinas, derrotando os suecos Simon Aspelin e Thomas Johansson na final.
Seis anos depois, participaram da campanha que garantiu à Suíça seu primeiro título da Copa Davis, em 2014.
Na decisão contra a França, Wawrinka venceu Jo-Wilfried Tsonga em simples e formou dupla com Federer para superar Julien Benneteau e Richard Gasquet.
A parceria consolidou um dos períodos mais vitoriosos da história do tênis suíço.
A história de Wawrinka também está diretamente conectada à trajetória de Roger Federer , seus títulos, rivalidades e legado no tênis mundial, especialmente pelas conquistas compartilhadas em competições por equipes.
O backhand de uma mão que marcou uma geração
Uma das características mais reconhecidas de Stan Wawrinka foi sua esquerda de uma mão, considerada um dos golpes mais impressionantes de sua geração.
Em um circuito no qual a esquerda com duas mãos se tornou predominante, Wawrinka preservou um estilo clássico, mas extremamente agressivo.
Seu backhand permitia acelerar a bola tanto nas trocas cruzadas quanto nas paralelas, produzindo golpes vencedores mesmo contra adversários com excelente capacidade defensiva.
A eficiência desse fundamento era especialmente perceptível nas partidas contra Djokovic e Nadal, dois jogadores conhecidos pela consistência nas trocas de bola do fundo da quadra.
Wawrinka também desenvolveu um saque potente, uma direita agressiva e uma capacidade de acelerar os pontos em momentos importantes.
O conjunto dessas características lhe rendeu o apelido de Stanimal, associado à intensidade física e à força de seus golpes.
Seu estilo não dependia exclusivamente da defesa ou da regularidade. Nos melhores momentos, o suíço conseguiu assumir os riscos e impor seu ritmo até mesmo contra os principais jogadores do ranking.
Lesões, cirurgias e a luta para continuar competitivo
A carreira dele também foi marcada por dificuldades físicas que interromperam sua sequência entre os melhores jogadores do mundo.
Em 2017, depois de alcançar a final de Roland Garros, passou por duas cirurgias no joelho esquerdo.
O período de recuperação comprometeu sua continuidade no circuito e dificultou a manutenção do nível apresentado entre 2014 e 2017.
Mesmo assim, conseguiu retornar às competições e voltar a disputar partidas importantes. Em 2019, alcançou as finais dos torneios de Rotterdam e Antuérpia, além de chegar às quartas de final de Roland Garros e do US Open.
Em 2021, enfrentou novos problemas físicos e precisou realizar duas cirurgias no pé esquerdo.
As interrupções exigiram um processo prolongado de recuperação e adaptação. Sem a mesma regularidade de seus melhores anos, Wawrinka continuou disputando torneios da ATP e também voltou a competir no circuito Challenger.
A longevidade tornou-se uma característica importante de sua trajetória. Mesmo distante do topo do ranking, manteve o compromisso de esportista e seguiu enfrentando adversários mais jovens até os 41 anos.
Um lugar entre os grandes do tênis
Stan Wawrinka construiu seu legado em uma época na qual Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic estabeleceram padrões extraordinários de desempenho.
A presença desses três jogadores tornou especialmente difícil conquistar títulos de Grand Slam. Wawrinka não apenas conseguiu vencer três vezes, como derrotou Nadal ou Djokovic nas respectivas finais.
Esse dado diferencia sua trajetória e ajuda a explicar por que suas grandes conquistas permanecem tão valorizadas.
O suíço também mostrou que o auge de um atleta pode chegar depois de muitos anos de desenvolvimento. Seu primeiro Grand Slam veio aos 28 anos, e o terceiro, aos 31.
Além dos títulos, deixou uma referência técnica por seu backhand de uma mão e uma história de superação construída em meio a lesões, cirurgias e retornos ao circuito.
A despedida na Basileia, em outubro de 2026, foi coerente com essa trajetória. Wawrinka não encerrou a carreira em uma partida de exibição ou em uma cerimônia isolada, mas disputando um confronto oficial contra um jogador de uma geração mais jovem.
Sua última partida terminou em derrota, mas o resultado não diminuiu a dimensão de sua história.
Com três títulos de Grand Slam, 16 troféus de simples, ouro olímpico, Copa Davis e o terceiro lugar do ranking mundial, Stan Wawrinka encerrou sua carreira deixando uma marca própria no tênis: a de um campeão que soube evoluir, desafiar os maiores jogadores de sua época e continuar competindo muito depois de alcançar o auge.