A Bélgica parecia eliminada. Senegal havia feito um primeiro tempo de alto nível, abriu 2 a 0, controlou boa parte da partida e levou para os minutos finais a sensação de que estava perto de uma classificação enorme para as oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Mas o mata-mata voltou a entregar um roteiro improvável: Romelu Lukaku saiu do banco para diminuir, Youri Tielemans empatou pouco depois e, na prorrogação, o próprio capitão belga converteu um pênalti revisado pelo VAR para fechar a vitória por 3 a 2, em Seattle.
Foi uma classificação com cara de página histórica. A Bélgica avançou às oitavas depois de estar perdendo por dois gols até os minutos finais do tempo normal. Habib Diarra e Ismaïla Sarr marcaram para Senegal, enquanto Lukaku, aos 86 minutos, e Tielemans, aos 89, levaram o jogo para a prorrogação. No fim do tempo extra, Tielemans sofreu a falta, a arbitragem confirmou o pênalti após revisão no vídeo e o camisa 8 bateu para transformar uma eliminação quase certa em uma vitória épica.
A Bélgica agora aguarda o vencedor de Estados Unidos x Bósnia e Herzegovina para conhecer seu adversário nas oitavas de final. A partida que define o rival belga será disputada nesta quarta-feira, 1º de julho, às 21h de Brasília, em Santa Clara. O jogo da Bélgica nas oitavas está marcado para segunda-feira, 6 de julho, às 21h de Brasília, no Seattle Stadium, novamente em Seattle.
Senegal fez o jogo que parecia perfeito por 85 minutos
Senegal entrou em campo com personalidade. Mesmo classificado como terceiro colocado na fase de grupos, o time de Sadio Mané não se comportou como azarão. Pelo contrário: pressionou a saída belga, encontrou espaços entre linhas e fez a Bélgica parecer lenta durante grande parte do jogo.
O primeiro gol saiu com Habib Diarra, que apareceu para finalizar e colocar os senegaleses em vantagem. Depois, Ismaïla Sarr ampliou no segundo tempo e aumentou a sensação de controle africano sobre a partida. A Bélgica tinha Courtois no gol, De Bruyne no meio e Trossard no ataque, mas por muito tempo produziu pouco para o tamanho de seus nomes.
A ausência de Édouard Mendy também era um detalhe importante do contexto. O goleiro titular de Senegal ficou fora por lesão, e Mory Diaw assumiu a posição no mata-mata. Até o fim do tempo normal, a substituição parecia não pesar tanto, mas a pressão belga cresceu justamente quando a defesa senegalesa mais precisava de segurança.
Lukaku mudou o clima da Bélgica
A entrada de Romelu Lukaku recolocou o time no jogo. Mesmo longe do protagonismo físico de outros ciclos, o atacante continua sendo uma referência emocional e técnica para a seleção. Aos 86 minutos, ele diminuiu o placar e transformou uma partida praticamente resolvida em um caos de mata-mata.
O gol teve peso maior do que o 2 a 1 no placar. Ele quebrou a confiança de Senegal, incendiou os belgas e abriu espaço para que a partida mudasse completamente de temperatura. A Bélgica, que parecia sem repertório, passou a jogar em cima do desespero adversário.
Poucos minutos depois, veio o empate. Trossard participou da jogada pela esquerda, a bola chegou em condição perigosa dentro da área, e Tielemans apareceu para marcar o 2 a 2. Foi o tipo de lance que muda a memória de uma Copa: Senegal saiu de uma classificação controlada para uma prorrogação emocionalmente pesada.
A decisão no VAR e o pênalti
A prorrogação teve o peso de uma partida que já havia escapado do plano original. Senegal ainda teve momentos para reagir, mas a Bélgica passou a jogar com a confiança de quem havia sobrevivido ao pior cenário possível. O lance final veio quando o jogo já caminhava para os pênaltis.
Nos acréscimos do tempo extra, Tielemans foi atingido por Lamine Camara dentro da área. A arbitragem revisou o lance no VAR e marcou pênalti. Antes da decisão, ainda houve emoção nome mesmo lance em um ataque belga, Dodi Lukébakio mandou a bola no travessão, aumentando a sensação de que a partida estava pendurada em detalhes mínimos. Depois da confirmação, Tielemans assumiu a cobrança e marcou o gol da classificação.
O roteiro foi cruel para Senegal. O time africano havia sido superior por longos períodos, mostrou organização, velocidade e coragem, mas caiu justamente quando a partida exigia frieza máxima. Para Sadio Mané, a eliminação também carregou um peso simbólico: pode ter sido uma das últimas grandes oportunidades do craque em Copa do Mundo.
O fantasma positivo de 2018
A virada belga imediatamente trouxe à memória a partida contra o Japão, nas oitavas da Copa do Mundo de 2018. Naquele jogo, a Bélgica também saiu perdendo por 2 a 0 e venceu por 3 a 2, com gol de Nacer Chadli nos acréscimos. O duelo contra Senegal repetiu a essência daquele roteiro: desvantagem, reação tardia, banco decisivo e classificação arrancada no limite.
A diferença é que, agora, o cenário envolve uma geração em reta final de ciclo. Kevin De Bruyne e Lukaku já não carregam a seleção com a mesma juventude dos anos anteriores, mas ainda são símbolos de um período em que a Bélgica se acostumou a competir entre as grandes. Ao lado deles, nomes como Trossard, Tielemans, Doku, De Ketelaere, Onana e outros jogadores de rotação mantêm o projeto vivo.
A vitória não apaga os problemas. A Bélgica passou boa parte do jogo abaixo de Senegal, sofreu para criar e dependeu de uma reação extrema. Mas mata-mata também se mede por sobrevivência. E sobreviver a um 2 a 0 contra uma seleção física, rápida e inspirada é o tipo de episódio que pode fortalecer um elenco em busca de algo maior.
Agora chega às oitavas com mais perguntas do que respostas, mas chega viva. Isso, em Copa do Mundo, já é uma condição positiva. A seleção passou por um dos jogos mais dramáticos do torneio, viu seu capitão decidir nos dois momentos mais importantes e ganhou uma nova camada emocional na tentativa de transformar talento em título.
A campanha belga segue com um objetivo que acompanha essa geração há anos: marcar definitivamente a história com uma taça. A equipe já teve elencos brilhantes, campanhas fortes e grandes vitórias, mas ainda busca o título que mudaria o peso do ciclo. A classificação diante de Senegal não foi apenas mais uma vitória. Foi uma lembrança de que, mesmo quando parece perto do fim, a Bélgica ainda tem jogadores capazes de alterar o destino de uma Copa.
Para Senegal, fica a sensação amarga de oportunidade perdida. O time jogou para avançar, teve a classificação nas mãos e se despediu com dignidade, mas também com a dor de quem esteve a poucos minutos de eliminar uma potência europeia. E, em uma Copa marcada por jogos de alta tensão como a virada da Inglaterra sobre o Congo com protagonismo de Harry Kane, a reação contra Senegal já entra como um dos capítulos mais fortes do mata-mata.