O clube se prepara para uma das transições mais importantes de sua história recente. Depois de uma década com Guardiola no comando, agora entra em uma nova era, e Enzo Maresca aparece como o principal favorito para assumir como técnico.
Guardiola não foi apenas um técnico vencedor em Manchester. Ele moldou o estilo, a cultura de treino, o padrão de exigência, o modelo de jogo e até a forma como o City passou a ser visto no futebol mundial. Por isso, a escolha de Maresca tem um sentido claro: o clube parece buscar alguém que conheça por dentro a linguagem construída nessa era , mas que também tenha repertório próprio para sobreviver à pressão de suceder uma lenda.
Quem é Enzo Maresca
Nascido em 10 de fevereiro de 1980, na Itália, construiu sua carreira no futebol como meio-campista antes de virar treinador. Como jogador, passou por clubes como West Bromwich, Juventus, Bologna, Piacenza, Fiorentina, Sevilla, Olympiacos, Málaga, Sampdoria, Palermo e Verona.
A passagem mais vitoriosa como atleta foi no Sevilla. No clube espanhol, Maresca fez parte de um período importante, com títulos europeus e nacionais. Era um meio-campista técnico, de boa leitura, acostumado a jogar em zonas centrais e participar da construção das jogadas.
Esse passado ajuda a explicar o treinador que ele se tornou. Maresca não é um técnico identificado com futebol direto, reativo ou baseado apenas em intensidade física. Sua formação como jogador e sua evolução como treinador apontam para um perfil de controle, ocupação de espaços, construção curta, posse de bola e organização coletiva.
Títulos como jogador
Antes de chegar ao banco de reservas, Maresca já havia vencido competições importantes como atleta.
Pela Juventus:
- Campeonato Italiano: 2001/02
Pelo Sevilla:
- Copa da UEFA: 2005/06 e 2006/07
- Supercopa da UEFA: 2006
- Copa do Rei: 2006/07
- Supercopa da Espanha: 2007
Pelo Palermo:
- Serie B italiana: 2013/14
A experiência no Sevilla é especialmente relevante porque colocou Maresca dentro de um ambiente competitivo europeu, com mata-matas, pressão continental e títulos internacionais. Isso não garante sucesso como treinador, mas ajuda a formar uma visão de jogo em alto nível.
Clubes que treinou
A carreira como treinador ainda é curta quando comparada ao tamanho do desafio que pode encontrar no Manchester City. Esse é um ponto central. Ele tem títulos, boas ideias e ligação com Guardiola, mas ainda não tem uma década de elite como comandante principal.
Clubes e períodos como treinador:
- Manchester City sub-23: 2020/21
- Parma: maio de 2021 a novembro de 2021
- Manchester City, auxiliar da equipe principal: 2022/23
- Leicester City: junho de 2023 a junho de 2024
- Chelsea: julho de 2024 a janeiro de 2026
No City sub-23, Maresca venceu a Premier League 2 e trabalhou com jovens importantes da base. No Parma, viveu seu primeiro teste como treinador profissional principal, mas durou pouco. No Leicester, teve a passagem mais limpa e objetiva: assumiu o clube após o rebaixamento, conquistou a Championship e devolveu a equipe à Premier League. No Chelsea, acumulou títulos, mas também conviveu com instabilidade institucional e deixou o clube antes de completar dois anos.
Títulos como treinador
Mesmo com uma carreira curta no comando, Maresca já tem conquistas relevantes.
Pelo Manchester City sub-23:
- Premier League 2: 2020/21
Pelo Leicester City:
- Championship: 2023/24
Pelo Chelsea:
- UEFA Conference League: 2024/25
- Mundial de Clubes da FIFA: 2025
O título da Championship com o Leicester é importante porque mostrou capacidade de liderar um projeto com obrigação clara: subir imediatamente. A Conference League e o Mundial de Clubes pelo Chelsea aumentaram o peso internacional do currículo, embora a passagem em Londres também tenha deixado perguntas sobre gestão de ambiente, estabilidade e relação com diretoria.
A ligação com Guardiola
O principal motivo que o coloca no radar do City é sua ligação direta com o antigo técnico. Ele já trabalhou no clube, comandou o time sub-23 e depois foi auxiliar da equipe principal na temporada 2022/23, justamente a campanha do triplete.
Essa experiência pesa muito. Maresca conhece a estrutura do City, o centro de treinamento, a cultura interna, a lógica de jogo, a exigência por controle e a forma como o clube pensa futebol. Em uma transição tão delicada, isso reduz riscos.
Ainda assim, a ligação entre os dois não deve ser lida como comparação direta. Guardiola já construiu uma carreira própria entre Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City, com títulos, revoluções táticas e impacto raro no futebol moderno. Maresca parte de outra posição: não chega para repetir uma história quase impossível de copiar, mas para tentar construir a própria versão dentro de um clube moldado por essa herança.
Contratar um treinador completamente externo poderia significar uma ruptura maior. Com Maresca, o City pode tentar trocar o líder sem desmontar a ideia. A escolha aponta para continuidade, não para revolução.
Ainda assim, continuidade não significa cópia. Maresca não é Guardiola. Nenhum treinador é. O desafio será usar a herança sem virar refém dela.
O estilo de jogo de Maresca
É reconhecido pela valorização da posse de bola, pela saída curta desde a defesa, pelo uso de laterais por dentro e pela tentativa de controlar o jogo com superioridade numérica no meio-campo.
Em muitos momentos, seus times formam uma estrutura parecida. Um lateral entra por dentro, um zagueiro abre a primeira linha, os meio-campistas se posicionam para dar opção curta, e os pontas mantêm amplitude para esticar a defesa adversária.
Principais características do modelo:
- construção desde o goleiro;
- posse com paciência;
- laterais invertidos;
- superioridade no meio-campo;
- pontas abertos;
- pressão alta após perda da bola;
- muitos jogadores à frente da linha da bola;
- controle territorial;
- busca por passes entre linhas;
- ocupação fixa de zonas no ataque.
É um futebol que conversa muito com a escola de Guardiola. A diferença está no nível de consolidação. O técnico espanhol desenvolveu e adaptou esse modelo por anos, em Barcelona, Bayern e City. Maresca ainda está construindo sua própria versão.
A ideia de controlar o jogo com a bola, manipular espaços, usar jogadores por dentro e manter a equipe organizada mesmo no ataque. Ele não é um treinador de bloco baixo, contra-ataque puro ou jogo direto como plano principal.
Mas a semelhança tem limite. Guardiola tem uma capacidade rara de adaptação. No City, venceu com falso 9, com centroavante dominante, com laterais por dentro, com zagueiro entrando no meio, com pontas de pé trocado, com extremos de amplitude e com diferentes formatos de pressão.
Maresca ainda precisa provar essa elasticidade no mais alto nível. Seu modelo é reconhecível, mas o City exigirá ajustes semanais. Na Premier League, adversários pressionam alto, atacam transições com velocidade e punem qualquer previsibilidade.
Por isso, não poderá apenas repetir fórmulas. Terá que adaptar o time sem descaracterizar o projeto.
A sombra de Guardiola
O maior adversário de Maresca, caso assuma o Manchester City, não estará apenas do outro lado do campo. Estará na memória recente do próprio clube.
Guardiola deixa uma sombra enorme. Foram dez anos, 20 títulos, domínio nacional, Champions League, triplete, recordes, jogadores transformados e uma identidade global. Qualquer empate ruim, eliminação precoce ou sequência instável será comparada com o padrão anterior.
A própria despedida de Guardiola do Manchester City ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. Não se trata apenas da quantidade de troféus, mas da forma como eles foram conquistados: com domínio territorial, controle de jogo, elencos reorganizados, recordes nacionais e uma Champions que completou o projeto.
Essa é a armadilha de suceder um técnico histórico. O novo treinador não começa do zero. Ele começa em comparação permanente. Se muda demais, é acusado de desmontar o legado. Se mantém tudo igual, é visto como cópia sem autoridade própria.
Maresca terá que encontrar um ponto de equilíbrio. Precisa preservar o que o City já sabe fazer, mas também mostrar rapidamente que tem comando, voz e leitura própria.
A troca de cultura no clube
A saída de Guardiola não muda apenas a prancheta. Muda a cultura diária.
Durante dez anos, o City viveu com um técnico que controlava detalhes de treino, posicionamento, comportamento, tomada de decisão e mentalidade. Guardiola era o centro do projeto esportivo. Mesmo com uma estrutura forte acima dele, sua presença moldava o ambiente.
Com Maresca, o clube tentaria manter a mesma língua futebolística, mas inevitavelmente haveria mudança de energia. O vestiário ouviria outra voz. Jogadores acostumados ao método antigo teriam que aceitar uma nova liderança. Jovens e veteranos precisariam entender que o projeto continua, mas o comando mudou.
Essa transição é mais psicológica do que tática. O City tem elenco, dinheiro, estrutura e conhecimento. A pergunta é se conseguirá manter a fome competitiva sem o treinador que virou símbolo da era mais vencedora do clube.
O risco de assumir depois de um ciclo longo
O futebol inglês já mostrou como é difícil substituir técnicos históricos. O exemplo mais pesado é o Manchester United depois de Sir Alex Ferguson. Em 2013, David Moyes assumiu um clube acostumado a vencer, mas encontrou um ambiente impossível de comparar com qualquer experiência anterior. A sombra de Ferguson, a pressão imediata e a necessidade de reorganizar o elenco transformaram a transição em crise.
Outro caso relevante foi o Arsenal depois de Arsène Wenger. Unai Emery chegou após 22 anos de um mesmo treinador, em um clube que precisava mudar sem perder identidade. O processo também teve dificuldade, porque ciclos longos deixam hábitos, vícios, referências e expectativas muito difíceis de substituir.
O City tenta evitar esse tipo de ruptura. A diferença é que o clube atual tem uma estrutura esportiva mais moderna, com direção técnica, análise, scouting e planejamento integrados. Mesmo assim, não existe sucessão simples depois de uma década tão dominante.
Maresca, se confirmado, não herdaria apenas um elenco. Herdaria uma era.
O que pesa a favor de Maresca
O primeiro é o conhecimento interno do Manchester City. Ele já trabalhou no clube, conhece parte da estrutura e entende a lógica do projeto.
O segundo é a familiaridade com o estilo. O City não precisaria reaprender completamente a jogar. Muitos princípios já estariam alinhados com a formação do treinador italiano.
O terceiro é o histórico recente de conquistas. A Championship com o Leicester mostrou capacidade de cumprir objetivo em um ambiente pressionado. Os títulos pelo Chelsea deram peso ao currículo internacional.
O quarto é a idade. Aos 46 anos, Maresca ainda está em fase de crescimento como treinador. Para um clube que pensa em ciclos longos, isso pode ser visto como oportunidade.
O que pesa contra
O primeiro é a pouca experiência acumulada como treinador principal. Maresca ainda não passou muitos anos comandando equipes de elite em sequência.
O segundo é o tamanho do salto. Leicester e Chelsea são clubes importantes, mas suceder Guardiola no City é um desafio específico, com uma pressão quase inédita.
O terceiro é a necessidade de gestão de estrelas. O City tem jogadores acostumados a decisões grandes, títulos e cobrança máxima. O treinador precisa convencer o elenco rapidamente.
O quarto é a comparação tática. Por ter ligação com Guardiola, Maresca será comparado a ele o tempo todo. Isso pode ajudar no início, mas também pode virar peso se os resultados não vierem.
Como o elenco pode se encaixar
A adaptação de Maresca parece natural em alguns pontos. O elenco foi montado para jogar com posse, pressão, circulação curta e domínio territorial. Isso reduz o choque inicial.
Um goleiro com bom passe, zagueiros confortáveis na saída, meio-campistas técnicos e atacantes capazes de atacar espaços são peças ideais para um treinador de jogo posicional. O City já tem esse DNA.
O ponto mais importante será a função dos laterais e meio-campistas. Maresca costuma trabalhar com laterais que entram por dentro para formar superioridade no centro. No City, isso já fez parte de diferentes versões do time de Guardiola. A transição, portanto, pode ser mais suave do que seria com um técnico de futebol direto.
Ainda assim, terá que decidir se mantém o modelo quase intacto ou se cria ajustes para acelerar ataques, proteger melhor transições e dar mais liberdade a jogadores decisivos.
O peso de Haaland na nova era
Qualquer treinador que assumir terá que pensar o time também a partir de Erling Haaland. O centroavante mudou a dinâmica ofensiva do clube desde sua chegada, porque oferece profundidade, presença de área e volume absurdo de gols.
Para Maresca, esse é um ponto decisivo. Um modelo de posse precisa encontrar o equilíbrio entre controle e agressividade. Não basta circular a bola. É preciso alimentar Haaland com frequência, atacar a área e transformar domínio em chances claras.
Guardiola levou um tempo para ajustar o City ao norueguês, mas encontrou caminhos. Maresca teria que partir dessa base, sem desperdiçar o maior finalizador do elenco.
A decisão menos radical possível
O interesse em Maresca mostra que o Manchester City não parece buscar uma ruptura total. O clube poderia escolher um treinador de perfil completamente diferente, mais vertical, mais reativo ou mais emocional. Ao mirar Maresca, sinaliza que pretende proteger a cultura técnica criada na última década.
Isso não elimina o risco. Às vezes, continuidade demais pode travar a renovação. Mas, neste caso, faz sentido. O City não está tentando reconstruir um clube quebrado. Está tentando manter alto um projeto que já funciona.
A escolha de Maresca seria menos sobre apagar Guardiola e mais sobre atravessar o pós-Guardiola com alguém que conhece o idioma da casa.
Se Maresca for confirmado, a mensagem será clara: o Manchester City quer seguir sendo um time de controle, posse, pressão e domínio territorial. A mudança seria de liderança, não de filosofia.
Ao mesmo tempo, o clube entraria em uma etapa de teste. A era Guardiola criou uma régua quase injusta. Ganhar campeonatos virou expectativa mínima. Competir pela Champions virou obrigação. Jogar bem virou parte da identidade.
Maresca teria que lidar com tudo isso enquanto constrói autoridade. Não bastará ser “ex-auxiliar de Guardiola”. Ele precisará ser Enzo Maresca.
Depois de Guardiola, qualquer treinador começará sob comparação. A missão de Maresca, se confirmado, será transformar essa sombra em ponto de partida, não em limite. No Manchester City, a nova era não será julgada apenas por jogar parecido. Será julgada por continuar vencendo.