O Vasco da Gama viu escapar uma oportunidade histórica de voltar a disputar uma final continental. Na noite desta terça-feira, 20 de outubro, diante de um Maracanã lotado, o Cruzmaltino foi derrotado por 3 a 1 pelo Boca Juniors, no jogo de volta da semifinal da Copa Sul-Americana, e se despediu da competição depois de chegar à decisão com vantagem no confronto.
O resultado representou mais do que uma eliminação. Para o Vasco, significou o prolongamento de uma espera de 26 anos por uma nova final internacional. Para o Boca Juniors, foi a reafirmação de uma tradição construída em grandes confrontos eliminatórios, com uma virada fora de casa que colocou o clube argentino novamente na disputa por um título continental.
O Boca chegou ao Rio de Janeiro pressionado pela derrota por 1 a 0 na Bombonera, mas mostrou força para reverter o confronto. Com gols de Lautaro Di Lollo, Miguel Merentiel e Leandro Paredes, venceu por 3 a 1, superou os brasileiros por 3 a 2 no placar agregado e garantiu a classificação. Puma Rodríguez marcou o único gol vascaíno.
A eliminação teve contornos dramáticos para o Vasco. Logo aos três minutos, Di Lollo abriu o placar para o Boca Juniors e igualou o confronto no agregado. Ainda no primeiro tempo, Merentiel ampliou para 2 a 0, levando os argentinos ao intervalo com a classificação nas mãos, em pleno Maracanã.
Após as mudanças promovidas pelo técnico Pedro Emanuel, o Vasco voltou com outra postura para o segundo tempo, mostrou mais agressividade e encontrou o gol com Puma Rodríguez, que chegou a 15 participações diretas em gols na temporada, sendo oito gols e sete assistências. O resultado de 2 a 1 deixava novamente o confronto empatado no agregado e encaminhava a decisão para os pênaltis.
Mas, aos 42 minutos do segundo tempo, Leandro Paredes, que havia desfalcado o Boca no jogo de ida por lesão e começou a partida de volta no banco, arriscou de longa distância e contou com uma falha de Léo Jardim para marcar o terceiro gol argentino. Mesmo com os acréscimos concedidos pela arbitragem, o Vasco não encontrou forças para reagir, e a esperança de disputar uma final continental depois de 26 anos terminou de maneira amarga diante de sua torcida.
Veja os melhores momentos da partida abaixo:
A vitória também encerrou um jejum dos argentinos em território brasileiro e recolocou o Boca na final da Sul-Americana pela primeira vez desde 2005. Já o Vasco, que havia construído uma campanha de recuperação e resultados expressivos, terminou novamente entre os quatro melhores da competição, mas sem conseguir disputar uma final continental.
Jejum de 26 anos sem uma final internacional
A última decisão continental disputada pelo Vasco aconteceu em dezembro de 2000, quando o clube conquistou a Copa Mercosul diante do Palmeiras, em uma das viradas mais emblemáticas da história do futebol sul-americano.
Na ocasião, depois de uma vitória para cada lado, o terceiro jogo da final foi disputado no antigo Parque Antarctica, em São Paulo. O Palmeiras abriu 3 a 0 no primeiro tempo, mas o Vasco protagonizou uma reação impressionante e venceu por 4 a 3, com três gols de Romário e um de Juninho Paulista.
A conquista encerrou um período extraordinário para o clube, que também havia levantado a Copa Libertadores em 1998, no ano de seu centenário.
Desde a Mercosul de 2000, entretanto, o Vasco não conseguiu retornar a uma decisão continental. A semifinal da Sul-Americana de 2026 era uma oportunidade concreta de interromper essa espera, especialmente depois da vitória conquistada em Buenos Aires.
Na própria Copa Sul-Americana, a melhor campanha anterior do Cruzmaltino havia acontecido em 2011. Naquele ano, a equipe chegou também à semifinal, mas acabou eliminada pela Universidad de Chile, que posteriormente conquistaria o título de maneira invicta.
A temporada de 2011 também ficou marcada pela conquista da Copa do Brasil, último grande título nacional do clube.
A eliminação foi ainda mais dolorosa pelo contexto da semifinal. O time comandado por Pedro Emanuel havia superado Independiente Medellín nos playoffs, Olimpia nas oitavas e Independiente Santa Fe nas quartas de final.
A vitória por 4 a 1 sobre o Olimpia, em Assunção, e o triunfo por 2 a 0 diante do Santa Fe, em São Januário, foram alguns dos resultados mais importantes dessa trajetória. A campanha mostrou capacidade de reação e competitividade, mas terminou justamente quando o objetivo continental parecia mais próximo.
A vantagem que o Vasco não conseguiu administrar
O cenário antes da partida de volta era favorável ao clube brasileiro. A vitória por 1 a 0 na Bombonera, com gol de Adson, permitia ao Vasco avançar à decisão com um simples empate no Maracanã. A expectativa em torno do confronto, na prévia da partida já indicava esse atmosfera.
O Boca, por outro lado, precisava vencer por pelo menos um gol de diferença para levar a disputa aos pênaltis ou por dois para garantir a classificação diretamente.
A equipe argentina não demorou a mudar o panorama da semifinal. Com dois gols no primeiro tempo, transformou a vantagem vascaína em desvantagem e obrigou os donos da casa a buscar uma reação.
Puma Rodríguez diminuiu na etapa final e recolocou o Vasco na disputa. Naquele momento, o placar agregado estava empatado, e a definição caminhava para os pênaltis.
Entretanto, Leandro Paredes marcou nos minutos finais, em uma finalização de longa distância que contou com falha de Léo Jardim, e determinou a classificação argentina.
O resultado evidenciou a dificuldade do Vasco para lidar com a pressão de uma semifinal decisiva. A equipe não conseguiu transformar o apoio da torcida e a vantagem construída fora de casa em controle do confronto.
Boca encerra quase seis anos sem vencer no Brasil
Além da classificação, a vitória no Maracanã representou o fim de um jejum expressivo para o Boca Juniors.
Antes de derrotar o Vasco, o gigante argentino não vencia uma partida em território brasileiro desde 2 de dezembro de 2020, quando superou o Internacional por 1 a 0, no Beira-Rio, pelas oitavas de final da Copa Libertadores. Carlos Tévez marcou o gol daquela vitória.
Desde então, o Boca havia disputado 11 partidas no Brasil sem vencer no tempo regulamentar, acumulando quatro empates e sete derrotas.
Mesmo sem conquistar vitórias, o Boca conseguiu classificações importantes em solo brasileiro, como diante do Palmeiras, na Libertadores de 2023, quando avançou nos pênaltis, e contra o São Paulo, nas quartas de final da própria Sul-Americana de 2026.
Contra o Vasco, porém, a equipe argentina precisava de algo diferente. Não bastava administrar um resultado ou resistir até as penalidades: era necessário vencer.
O triunfo por 3 a 1 acabou com a sequência negativa e ganhou ainda mais importância por acontecer no Maracanã, um dos estádios mais simbólicos do continente.
Foi também a primeira vez que o Boca conseguiu vencer uma série eliminatória no Maracanã. O confronto marcou a segunda ocasião em que o clube reverteu uma derrota na partida de ida decidindo o mata-mata no Brasil. A primeira havia ocorrido contra o Paysandu, na Libertadores de 2003.
O Boca mais uma vez mostrou sua tradição em confrontos contra brasileiros. Com a classificação sobre o Vasco, chegou a 18 séries eliminatórias vencidas em território nacional por competições organizadas pela Conmebol, considerando os diferentes torneios continentais de sua história.
A classificação também encerrou uma espera de 21 anos do Boca Juniors para disputar novamente uma final da Copa Sul-Americana.
A última participação havia acontecido em 2005, quando o clube argentino conquistou o título diante do Pumas UNAM, do México.
Um ano antes, em 2004, o clube já havia conquistado a competição ao derrotar o Bolívar, da Bolívia, na decisão.
Com os títulos de 2004 e 2005, o Boca se tornou o primeiro bicampeão consecutivo da Sul-Americana. Agora, na terceira final de sua história no torneio, terá a oportunidade de buscar uma conquista inédita: tornar-se o primeiro clube tricampeão da competição.
É importante distinguir esse intervalo da ausência em finais continentais de maneira geral. O Boca disputou a decisão da Libertadores de 2023, quando perdeu por 2 a 1 para o Fluminense, justamente no Maracanã.
O peso da camisa e a força da tradição argentina
A classificação diante do Vasco reforçou uma característica histórica do Boca Juniors: sua capacidade de competir em ambientes adversos e superar situações desfavoráveis em confrontos eliminatórios.
O clube argentino construiu grande parte de sua reputação internacional em decisões contra adversários brasileiros, incluindo conquistas de Libertadores diante de Palmeiras, Santos e Grêmio.
A campanha de 2026 adicionou mais um episódio importante a essa trajetória.
Depois de terminar a fase de grupos da Libertadores na terceira colocação de sua chave, o Boca passou a disputar a Sul-Americana. Nos playoffs, eliminou o O'Higgins nos pênaltis; nas oitavas, superou o Deportivo Recoleta; e nas quartas, deixou o São Paulo pelo caminho.
Na semifinal, precisou superar sua maior adversidade no torneio: reverter uma derrota dentro da Bombonera e vencer no Brasil.
Sob o comando de Rodolfo Arruabarrena, o time argentino encontrou soluções em jogadores de diferentes características, combinando a experiência de Leandro Paredes com a presença ofensiva de Miguel Merentiel e o protagonismo de outros nomes do elenco.
A campanha também tem um componente simbólico para o treinador. Arruabarrena já havia comandado o Boca em sua semifinal da Sul-Americana de 2014 e agora conseguiu conduzir a equipe à decisão.
O Boca não avançou apenas pela tradição de sua camisa. Avançou porque foi mais eficiente no confronto decisivo e soube aproveitar os erros do adversário. Mas o resultado também demonstrou por que sua história continental continua sendo um elemento importante em jogos de grande pressão.
O que resta para o Vasco após a eliminação
A queda na Sul-Americana encerrou um dos principais caminhos do Vasco para conquistar um título expressivo em 2026, mas não colocou um ponto-final nas ambições da temporada.
O clube ainda tem a semifinal da Copa do Brasil diante do Palmeiras, além da necessidade de melhorar sua situação no Campeonato Brasileiro, competição em que atravessa uma campanha marcada pela preocupação com a zona de rebaixamento.
A Copa do Brasil ganhou importância especial nesse contexto. Em 2025, o Vasco chegou à final do torneio, mas terminou com o vice-campeonato após perder para o Corinthians por 2 a 1, no Maracanã.
Assim, embora siga distante de uma decisão internacional desde 2000, o Cruzmaltino voltou recentemente a disputar uma final nacional. Essa diferença ajuda a dimensionar o tamanho específico do jejum continental.
Para Pedro Emanuel e seus jogadores, a eliminação também deixa um desafio esportivo e emocional. A campanha na Sul-Americana apresentou momentos de evolução, sobretudo nos confrontos eliminatórios, mas a derrota para o Boca mostrou que ainda há uma distância entre alcançar uma semifinal e conseguir decidir um título.