Zinedine Zidane é um dos personagens mais completos da história do futebol. Como jogador, foi campeão mundial pela França, brilhou na Juventus, virou ídolo do Real Madrid e marcou um dos gols mais famosos da história da Champions League. Como técnico, voltou ao clube espanhol e comandou uma sequência histórica de três títulos consecutivos da competição europeia.
A carreira dele não se resume à elegância com a bola. Ela também passa por decisões, títulos, derrotas marcantes, protagonismo em Copas do Mundo e uma despedida dramática. Da final contra o Brasil em 1998 à cabeçada em Marco Materazzi em 2006, o francês construiu uma trajetória que mistura genialidade, pressão, glória e controvérsia.
Início da carreira no futebol francês
Zidane nasceu em junho de 1972, em Marselha, na França. Revelado pelo Cannes, estreou como profissional ainda adolescente, no fim dos anos 1980, e começou a chamar atenção pela técnica acima da média, pela força física e pela capacidade de proteger a bola mesmo sob marcação.
Depois do Cannes, se transferiu para o Bordeaux, onde atuou entre 1992 e 1996. Foi no clube francês que seu nome começou a ganhar projeção internacional. Na temporada 1995/96 ajudou o clube a chegar à final da Copa da UEFA, perdida para o Bayern de Munique.
A passagem pelo Bordeaux foi decisiva porque colocou Zidane no radar dos grandes clubes europeus. Ele ainda não era o jogador consagrado que seria anos depois, mas já mostrava as características que marcariam sua carreira: domínio, passe vertical, leitura de espaço, proteção de bola e frieza para jogar sob pressão, além da sua marca registrada, a elegância para jogar.
Juventus: títulos, finais e afirmação mundial
Ele chegou ao clube de Turin em 1996, depois da Eurocopa daquele ano, e permaneceu no clube italiano até 2001. Disputou mais de 200 partidas oficiais, marcou 31 gols e se consolidou definitivamente como um dos grandes meias do futebol mundial.
Pela Juventus, Zidane conquistou seis títulos: o Bi campeonato Italiano de 1996/97 e 1997/98, a Supercopa da Itália de 1997, a Supercopa da UEFA de 1996, a Copa Intercontinental de 1996. Esses troféus fizeram parte de uma Juventus forte, competitiva e presença constante nas fases decisivas do futebol europeu.
O ponto que faltou na passagem pelo clube italiano foi a Champions League. O francês disputou duas finais consecutivas. Em 1996/97, a Juventus perdeu por 3 a 1 para o Borussia Dortmund, em Munique. Em 1997/98, voltou à decisão e foi derrotada por 1 a 0 pelo Real Madrid, em Amsterdã..
Mesmo sem conquistar a Champions pela Juventus, Zidane saiu da Itália maior do que chegou. Foi eleito Bola de Ouro em 1998, impulsionado pela temporada no clube italiano e, principalmente, pela campanha histórica com a seleção francesa na Copa do Mundo daquele ano.
França, Copa de 1998 e a final contra o Brasil
O ponto mais simbólico da carreira como jogador veio com a seleção francesa. Na Copa do Mundo de 1998, disputada em casa, a França chegou à final contra o Brasil, então atual campeão mundial e dono de uma geração com Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Cafu, Roberto Carlos e Dunga.
A final disputada no Stade de France, em Saint-Denis. Zidane decidiu o jogo ainda no primeiro tempo. Marcou dois gols de cabeça, Emmanuel Petit fechou o placar nos acréscimos, e a França venceu o Brasil por 3 a 0.
Aquele resultado deu à França seu primeiro título mundial e transformou Zidane em herói nacional. A imagem do camisa 10 decidindo uma final de Copa do Mundo contra o Brasil com dois gols segue como uma das cenas mais simbólicas da seleção francesa em mundiais.
O título de 1998 também mudou o seu patamar histórico. Ele já era um craque de elite, mas a atuação na decisão colocou seu nome entre os grandes protagonistas de Mundiais. A partir dali, Zidane passou a ser visto não apenas como um meia refinado, mas como um jogador capaz de definir uma final do maior torneio do planeta.
Euro 2000 e auge com a seleção francesa
Dois anos depois do título mundial, ele liderou a França em mais uma conquista de peso: a Euro 2000. A seleção francesa manteve a base campeã do mundo e confirmou sua força ao vencer também o torneio continental.
Na campanha, Zidane foi o cérebro da equipe. Atuava entre as linhas, organizava a saída ofensiva e controlava o ritmo dos jogos. A França venceu a Itália por 2 a 1 na final, em Roterdã, com gol de ouro de David Trezeguet na prorrogação.
Com os títulos da Copa do Mundo de 1998 e da Euro 2000, Zidane se tornou o símbolo técnico da geração mais vitoriosa da França até aquele momento. Ele era o jogador que dava sentido ao time: recebia sob pressão, girava, encontrava o passe certo e aparecia em momentos decisivos.
Real Madrid: contratação, números e títulos como jogador
Em 2001, Zidane chegou ao ao clube espanhol, como uma das maiores contratações da era dos Galácticos. Ao lado de Luís Figo, Ronaldo, Roberto Carlos, Raúl e, depois, David Beckham, o francês virou uma das grandes referências técnicas do elenco.
Pelo Real Madrid, disputou 227 jogos e marcou 49 gols entre 2001 e 2006. Como jogador do clube espanhol, conquistou seis títulos oficiais: a Champions League de 2001/02, a LaLiga de 2002/03, as Supercopas da Espanha de 2001 e 2003, a Supercopa da UEFA de 2002 e a Copa Intercontinental de 2002.
O título mais simbólico foi a Champions League de 2001/02. A final disputada no Hampden Park, em Glasgow, contra o Bayer Leverkusen. O Real Madrid venceu por 2 a 1. Raúl abriu o placar, Lúcio empatou para o clube alemão, e Zidane decidiu ainda no primeiro tempo com um voleio de esquerda histórico, após cruzamento de Roberto Carlos.
O gol virou uma das imagens mais famosas da Champions League. Mais do que um lance bonito, foi um gol de título, em uma final continental, por um clube que trata a competição como parte central de sua identidade.
O camisa 5 virou símbolo de elegância, controle e decisão. Sua passagem pelo clube teve títulos nacionais, conquistas internacionais e um dos gols mais importantes da história madridista.
Copa de 2006, final contra a Itália e a expulsão
A Copa do Mundo de 2006 foi o último torneio da carreira de Zidane como jogador. Depois de ter se aposentado da seleção e retornado para ajudar a França nas Eliminatórias, ele liderou uma equipe experiente, com nomes como Thierry Henry, Patrick Vieira, Lilian Thuram, Claude Makélélé e Fabien Barthez.
A França cresceu durante o mata-mata. Nas oitavas de final, eliminou a Espanha com vitória por 3 a 1. Nas quartas, venceu o Brasil por 1 a 0, com gol de Thierry Henry após cobrança de falta dele. Na semifinal, passou por Portugal por 1 a 0, com gol de pênalti do próprio Zidane.
A final contra a Itália foi disputada no Estádio Olímpico de Berlim. Zidane abriu o placar aos 7 minutos, cobrando pênalti com uma cavadinha que bateu no travessão e entrou. Marco Materazzi empatou aos 19 minutos, de cabeça, e o jogo seguiu para a prorrogação.
Aos 110 minutos, aconteceu a cena mais famosa e controversa da carreira do francês e dos mundiais. Depois de uma troca de palavras com Materazzi, Zidane acertou uma cabeçada no peito do zagueiro italiano e foi expulso. A França perdeu a final nos pênaltis por 5 a 3, depois do empate por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação.
A cabeçada marcou a despedida de Zidane dos gramados. Foi uma saída dramática, em contraste com o tamanho de sua carreira. Ainda assim, o episódio não apagou seu legado. Pelo contrário: reforçou a complexidade de um jogador genial, competitivo e emocional, capaz de produzir beleza e tensão no mesmo palco.
Carreira como técnico do Real Madrid
Depois da aposentadoria, Zidane seguiu ligado ao time merengue. Trabalhou como dirigente, auxiliar e treinador do Castilla, equipe B do clube. Em janeiro de 2016, assumiu o time principal no lugar de Rafa Benítez.
A resposta foi imediata. Poucos meses depois, levou o Real Madrid ao título da Champions League de 2015/16, vencendo o Atlético de Madrid na final, em Milão.
Na temporada seguinte, Zidane comandou um time ainda mais forte. Em 2016/17, o Real Madrid conquistou LaLiga e Champions League. Na final europeia, em Cardiff, venceu a Juventus por 4 a 1, com atuação dominante no segundo tempo. Foi a primeira vez que um clube conseguiu defender o título da Champions League desde a criação do formato moderno da competição.
O auge veio em 2017/18, com a terceira conquista seguida. Na final, disputada em Kiev, o Real Madrid venceu o Liverpool por 3 a 1. Com isso, Zidane se tornou o primeiro técnico a conquistar três edições consecutivas da Champions League no formato moderno do torneio.
Essa sequência o colocou em um grupo extremamente raro. Além de ter sido campeão como jogador, ele também conquistou a competição como técnico. Na era moderna da competição, Frank Rijkaard é outro exemplo marcante desse feito: campeão como jogador pelo Ajax em 1994/95 e como treinador do Barcelona em 2005/06.
O número é expressivo porque ele não construiu uma carreira longa como técnico até aqui. Mesmo assim, em poucos anos, alcançou uma marca que muitos treinadores históricos não conseguiram: três Champions League, todas pelo mesmo clube e em sequência.
Seu mérito não esteve apenas na gestão de estrelas. Zidane soube equilibrar Cristiano Ronaldo, Benzema, Modrić, Kroos, Casemiro, Sergio Ramos, Marcelo e outros nomes decisivos de um elenco vencedor. O Real Madrid de sua primeira passagem talvez não tenha sido lembrado como o time mais revolucionário em estilo, mas foi uma equipe madura, competitiva e extremamente forte em jogos grandes.
O legado de Zidane no futebol
O caminho é raro porque atravessa duas carreiras. Como jogador, foi campeão de praticamente tudo que disputou e sendo protagonista de finais históricas. Pela Seleção, disputou 108 jogos e marcou 31 gols, números que reforçam sua longevidade e importância para a seleção.
Como meia, representou uma ideia clássica de camisa 10: técnica refinada, controle de ritmo, visão de jogo e capacidade de decidir sem precisar acelerar todas as jogadas. Não foi apenas plástico, era eficiente.
Como técnico, ampliou a própria lenda. Voltou ao Real Madrid, clube onde já era ídolo como jogador, e comandou uma das maiores sequências da história da Champions League. Transformou prestígio em resultado, algo que nem todo craque consegue fazer depois de deixar os gramados.
Por isso, Zinedine Zidane permanece como um dos personagens mais fascinantes da história do esporte: um craque que transformou talento em títulos, viveu glórias e quedas no maior palco do mundo e ainda escreveu um segundo capítulo vitorioso fora das quatro linhas.