O Grêmio tem uma das trajetórias mais fortes do futebol brasileiro na Copa Libertadores. O clube conquistou a América três vezes: em 1983, contra o Peñarol; em 1995, contra o Atlético Nacional; e em 2017, contra o Lanús. As três taças contam histórias diferentes, mas carregam uma mesma identidade: times competitivos, mentalidade copeira, força defensiva, jogadores decisivos e enorme conexão com a torcida.
A Libertadores tem peso especial na construção da imagem do Grêmio como clube copeiro. O Tricolor não foi campeão apenas em casa, nem dependeu de um único tipo de futebol. Em 1983, venceu com intensidade, coragem e resistência contra rivais sul-americanos pesados. Em 1995, teve um time agressivo, físico, liderado por Felipão e embalado pelos gols de Jardel. Em 2017, encantou com toque de bola, organização, Arthur, Luan, Geromel, Kannemann, Marcelo Grohe e Renato Portaluppi no comando.
Essa relação com torneios eliminatórios também aparece em outras competições da história gremista. A capacidade de competir em jogos grandes, administrar vantagens e decidir duelos duros ajuda a explicar por que a Libertadores é parte central da identidade do clube, assim como ocorre na história dos títulos na Copa do Brasil.
Além dos títulos, o clube também disputou finais em outras edições, como 1984 e 2007. Isso reforça a presença constante do Tricolor entre os grandes brasileiros da competição. Mas são as campanhas campeãs que definem o tamanho do Grêmio na América.
A primeira conquista da América
O primeiro título veio em 1983, em um ano simbólico para o clube. O Tricolor comemorava 80 anos e havia chegado à competição após o vice-campeonato brasileiro de 1982. O time comandado por Valdir Espinosa tinha Mazaropi no gol, Hugo de León como líder defensivo, Tita na criação, Osvaldo como artilheiro, Renato Portaluppi como desequilíbrio pelos lados, Tarciso como símbolo de entrega e Caio e César como atacantes decisivos. A campanha teve 12 jogos, oito vitórias, três empates, uma derrota, 23 gols marcados e 12 sofridos.
A primeira fase colocou o Grêmio em um grupo com Flamengo, Bolívar e Blooming. O início foi contra o Flamengo, então campeão brasileiro de 1982, em um empate por 1 a 1 no Olímpico. A partir dali, o Tricolor embalou. Venceu o Blooming por 2 a 0 na Bolívia, bateu o Bolívar por 2 a 1 na altitude de La Paz, ganhou do Blooming por 2 a 0 no Olímpico, fez 3 a 1 no Bolívar e fechou a fase com uma vitória marcante sobre o Flamengo no Maracanã, por 3 a 1.
Na segunda fase, a Libertadores ainda tinha formato de triangular semifinal. O Grêmio enfrentou Estudiantes, da Argentina, e América de Cali, da Colômbia. A estreia foi uma vitória por 2 a 1 sobre o Estudiantes no Olímpico. Depois, veio a única derrota da campanha: 1 a 0 para o América de Cali, fora de casa. O Tricolor reagiu em Porto Alegre e venceu os colombianos por 2 a 1.
O jogo mais dramático daquela fase foi contra o Estudiantes, na Argentina. A partida ficou conhecida como a "batalha de La Plata" pela violência, pressão e tensão do ambiente. O Grêmio empatou por 3 a 3, resultado suficiente para levar o clube à final. A classificação mostrou uma característica que viraria marca histórica: o Grêmio sabia sofrer, competir e sobreviver fora de casa.
Campanha completa de 1983
Fase de grupos:
- Grêmio 1 x 1 Flamengo
Gol: Hugo de León. - Blooming 0 x 2 Grêmio
Gols: Tita e Renato Portaluppi. - Bolívar 1 x 2 Grêmio
Gols: Osvaldo e China. - Grêmio 2 x 0 Blooming
Gols: Caio e Osvaldo. - Grêmio 3 x 1 Bolívar
Golso: Tita duas vezes e Tonho. - Flamengo 1 x 3 Grêmio
Gols: Tita, Caio e Osvaldo.
Semifinal triangular:
- Grêmio 2 x 1 Estudiantes
Gols: Osvaldo e Tarciso. - América de Cali 1 x 0 Grêmio
- Grêmio 2 x 1 América de Cali
Gols: Caio e Osvaldo. - Estudiantes 3 x 3 Grêmio
Gols: Osvaldo, César e Renato Portaluppi.
Final:
- Peñarol 1 x 1 Grêmio
Gol: Tita. - Grêmio 2 x 1 Peñarol
Gols: Caio e César.
A final
A decisão foi contra o Peñarol, um gigante continental. O clube uruguaio já tinha quatro títulos de Libertadores e era o atual campeão mundial. O primeiro jogo, em 22 de julho de 1983, no Estádio Centenário, em Montevidéu, terminou 1 a 1. Tita marcou o gol gremista, e Fernando Morena empatou para o Peñarol. O resultado levou a decisão aberta para o Olímpico.
A finalíssima aconteceu em 28 de julho de 1983, no Estádio Olímpico, diante de cerca de 80 mil pessoas. O Grêmio abriu o placar com Caio, aos 10 minutos do primeiro tempo. O Peñarol empatou com Fernando Morena, aos 25 minutos da etapa final. Seis minutos depois, Renato avançou pela direita e cruzou para César marcar de cabeça o gol do título. O Grêmio venceu por 2 a 1 e conquistou sua primeira Libertadores. Naquele jogo, Renato e Venâncio Ramos ainda foram expulsos aos 42 minutos do segundo tempo.
Destaques da campanha
Osvaldo foi o artilheiro gremista, com seis gols. Tita marcou cinco e foi essencial pela criatividade e chegada ao ataque. Caio fez quatro gols, incluindo o primeiro da decisão no Olímpico. Renato Portaluppi marcou duas vezes, mas sua importância foi além dos gols: deu seis assistências na campanha e participou diretamente do lance do título, com o cruzamento para César. César também fez dois gols, incluindo o mais importante da temporada.
Hugo de León foi o símbolo da liderança. Capitão, zagueiro duro e referência emocional, levantou a taça com sangue no rosto, imagem que virou um dos registros mais fortes da história gremista. Mazaropi deu segurança no gol. Tarciso, China, Baidek, Casemiro e Paulo Roberto completaram um time de enorme entrega.
O título de 1983 colocou o Grêmio no mapa da América e abriu caminho para o Mundial Interclubes contra o Hamburgo, vencido em Tóquio. Foi a conquista que transformou o clube em potência internacional.
Felipão, Jardel, a força do Olímpico e o bi campeonato
Doze anos depois, o Grêmio voltou ao topo da América. A Libertadores de 1995 teve o comando de Luiz Felipe Scolari, o mesmo técnico que anos antes havia conquistado a Copa do Brasil com o Criciúma e que depois viraria um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro e mundial. No Grêmio, Felipão montou um time competitivo, intenso, físico e direto, com Danrlei, Arce, Rivarola, Adilson, Roger, Dinho, Goiano, Arílson, Carlos Miguel, Paulo Nunes e Jardel entre os principais nomes.
A campanha teve 14 jogos, oito vitórias, quatro empates, duas derrotas, 29 gols marcados e 14 sofridos. O Grêmio passou por uma fase de grupos dura, eliminou o Olimpia nas oitavas, superou o Palmeiras em um confronto histórico nas quartas, derrubou o Emelec na semifinal e decidiu o título contra o Atlético Nacional.
A fase de grupos começou com derrota para o Palmeiras por 3 a 2, no Parque Antarctica. Depois, o time empatou por 2 a 2 com o Emelec em Guayaquil. A primeira vitória veio contra o El Nacional, em Quito por 2 a 1. Em Porto Alegre, o Grêmio empatou sem gols com o Palmeiras, goleou o Emelec por 4 a 1 e venceu o El Nacional por 2 a 0.
Nas oitavas de final, o Grêmio fez uma eliminatória perfeita contra o Olimpia. Venceu por 3 a 0 em Assunção e confirmou a classificação no Olímpico com 2 a 0.
Campanha completa de 1995
Fase de grupos:
- Palmeiras 3 x 2 Grêmio
Gols: Jardel e Goiano. - Emelec 2 x 2 Grêmio
Gols: Jardel e Paulo Nunes. - El Nacional 1 x 2 Grêmio
Gols: Arce duas vezes. - Grêmio 0 x 0 Palmeiras
- Grêmio 4 x 1 Emelec
Gols: Jardel, Luciano, Paulo Nunes e Magno. - Grêmio 2 x 0 El Nacional
Gols: Jacques e Magno.
Oitavas de final:
- Olimpia 0 x 3 Grêmio
Gols: Dinho, Jardel e Paulo Nunes. - Grêmio 2 x 0 Olimpia
Gols: Jardel e Adilson.
Quartas de final:
- Grêmio 5 x 0 Palmeiras
Gols: Arce, Arílson e Jardel três vezes. - Palmeiras 5 x 1 Grêmio
Gol: Jardel.
Semifinal:
- Emelec 0 x 0 Grêmio
- Grêmio 2 x 0 Emelec
Gols: Paulo Nunes e Jardel.
Final:
- Grêmio 3 x 1 Atlético Nacional
Gols: Marulanda contra, Jardel e Paulo Nunes. - Atlético Nacional 1 x 1 Grêmio
Gol: Dinho, de pênalti.
A goleada e a semifinal
O confronto com o Palmeiras nas quartas de final foi um dos mais marcantes da história da Libertadores. No jogo de ida, no Olímpico, o Grêmio venceu por 5 a 0, com três gols de Jardel, um de Arce e outro de Arílson. A atuação foi uma demonstração de imposição, bola aérea, intensidade e aproveitamento ofensivo, também ficou marcada por uma briga generalizada que começou com Dinho e Valber.
Na volta, o Palmeiras venceu por 5 a 1 em São Paulo, mas o gol de Jardel foi decisivo para manter o Grêmio vivo com vantagem no agregado. O placar total ficou 6 a 5 para o Tricolor. Foi uma eliminatória extrema: goleada histórica na ida, sofrimento na volta e classificação por detalhe.
Na semifinal, o adversário foi o Emelec. O primeiro jogo, em Guayaquil, terminou 0 a 0. Na volta, no Olímpico, o Grêmio venceu por 2 a 0, com gols da dupla icônica Paulo Nunes e Jardel, e voltou a uma final continental. A campanha mostrava duas armas centrais: força em Porto Alegre e capacidade de resistir fora de casa.
A final
O confronto derradeiro foi contra o Atlético Nacional, da Colômbia, campeão da Libertadores de 1989 e dono de uma tradição forte no torneio. O primeiro jogo aconteceu em 23 de agosto de 1995, no Olímpico. O Grêmio venceu por 3 a 1. O placar começou com gol contra de Marulanda, após cruzamento de Paulo Nunes. Depois, Jardel aproveitou rebote de Higuita e fez 2 a 0. No segundo tempo, Paulo Nunes marcou o terceiro. O Atlético Nacional descontou, mas a vantagem gremista era forte para a volta.
O segundo jogo foi em 30 de agosto de 1995, no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín. O Atlético Nacional abriu o placar com Aristizábal aos 12 minutos do primeiro tempo. O resultado ainda dava o título ao Grêmio, mas deixava o jogo nervoso, com pressão colombiana e ambiente hostil. Aos 40 minutos do segundo tempo, Alexandre Gaúcho recebeu passe de Nildo e foi derrubado na área. Dinho cobrou o pênalti com força, empatou por 1 a 1 e acabou com a tensão. O Grêmio segurou o resultado e conquistou o bicampeonato da Libertadores.
Destaques da campanha de 1995
Jardel foi o grande artilheiro gremista, com 11 gols na campanha. O centroavante marcou em praticamente todas as fases importantes: fase de grupos, oitavas, quartas, semifinal e final. Sua presença na área era uma arma constante, especialmente pelo alto.
Paulo Nunes marcou cinco gols e foi fundamental pela mobilidade, agressividade e parceria com Jardel. Arce fez três gols e deu qualidade técnica ao lado direito, além da bola parada. Dinho marcou dois gols, incluindo o pênalti do título em Medellín, e virou símbolo de raça. Magno também fez dois. Goiano, Luciano, Jacques, Adilson e Arílson completaram a lista de goleadores.
Danrlei foi o goleiro da conquista, com personalidade forte e identificação imediata com a torcida. Adilson foi o capitão. Rivarola, Roger, Carlos Miguel e Arílson deram sustentação a um time que jogava com intensidade máxima. Felipão foi o comandante perfeito para aquele elenco: transformou força, choque, bola aérea e entrega em uma campanha campeã.
Renato, Luan, Arthur e o futebol copeiro com toque de bola
A terceira Libertadores do Grêmio veio em 2017, 22 anos depois do bicampeonato. A conquista teve um significado especial porque uniu duas imagens históricas do clube: Renato Portaluppi, herói como jogador em 1983, voltou a ser protagonista como treinador. O time campeão tinha Marcelo Grohe, Edílson, Pedro Geromel, Kannemann, Bruno Cortez, Michel, Arthur, Ramiro, Luan, Pedro Rocha, Lucas Barrios, Fernandinho, Cícero, Jael, Everton e outros nomes importantes.
A campanha teve 14 jogos, dez vitórias, dois empates e duas derrotas. O Grêmio marcou 25 gols e sofreu nove. Foi uma trajetória de futebol técnico, mas também de maturidade competitiva. O time sabia trocar passes, controlar ritmo, acelerar com Luan e Pedro Rocha, usar a experiência de Barrios, atacar pelos lados com Edílson e Cortez e defender com uma das melhores duplas de zaga do continente: Geromel e Kannemann.
Na fase de grupos, o Grêmio caiu com Zamora, Deportes Iquique e Guaraní. A estreia foi fora de casa, na Venezuela: vitória por 2 a 0 sobre o Zamora. Depois, na Arena, o time venceu o Deportes Iquique por 3 a 2. No Paraguai, empatou por 1 a 1 com o Guaraní. Na volta contra os paraguaios, goleou por 4 a 1. No Chile, perdeu por 2 a 1 para o Deportes Iquique. Na última rodada, goleou o Zamora por 4 a 0.
No mata-mata, o Grêmio começou contra o Godoy Cruz. Venceu por 1 a 0 na Argentina e por 2 a 1 na Arena. Nas quartas, enfrentou o Botafogo. Empatou sem gols no Rio de Janeiro e venceu por 1 a 0 em Porto Alegre, com gol de cabeça de Lucas Barrios, após cruzamento de Edílson. Na semifinal, bateu o Barcelona de Guayaquil por 3 a 0 no Equador. Na volta, perdeu por 1 a 0 na Arena, mas avançou com segurança pelo agregado.
Campanha completa de 2017
Fase de grupos:
- Zamora 0 x 2 Grêmio
Gols: Léo Moura e Luan. - Grêmio 3 x 2 Deportes Iquique
Gols: Luan duas vezes e Miller Bolaños. - Guaraní 1 x 1 Grêmio
Gol: Pedro Rocha. - Grêmio 4 x 1 Guaraní
Gols: Lucas Barrios três vezes e Pedro Geromel. - Deportes Iquique 2 x 1 Grêmio
Gol: Lucas Barrios. - Grêmio 4 x 0 Zamora
Gols: Luan duas vezes, Lucas Barrios e Pedro Rocha.
Oitavas de final:
- Godoy Cruz 0 x 1 Grêmio
Gol: Ramiro. - Grêmio 2 x 1 Godoy Cruz
Gols: Pedro Rocha duas vezes.
Quartas de final:
- Botafogo 0 x 0 Grêmio
- Grêmio 1 x 0 Botafogo
Gol: Lucas Barrios.
Semifinal:
- Barcelona de Guayaquil 0 x 3 Grêmio
Gols: Luan duas vezes e Edílson. - Grêmio 0 x 1 Barcelona de Guayaquil
Avançou pelo placar agregado.
Final:
- Grêmio 1 x 0 Lanús
Gol: Cícero. - Lanús 1 x 2 Grêmio
Gols: Fernandinho e Luan.
A final
A decisão de 2017 foi contra o Lanús, da Argentina. No jogo de ida, em 22 de novembro, na Arena do Grêmio, a partida foi equilibrada e tática. O Tricolor encontrou o gol no segundo tempo: Jael participou da jogada, Edílson cruzou, e Cícero apareceu para marcar o 1 a 0. A vantagem era curta, mas enorme em uma final de Libertadores, também foi o último time brasileiro a jogar uma partida final em casa, pois em 2018 a final foi totalmente argentina, e a partir de 2019 o título é decidido em jogo único e estádio neutro.
A volta aconteceu em 29 de novembro, no Estádio La Fortaleza, em Lanús. O Grêmio não entrou apenas para defender o resultado. Aos 27 minutos do primeiro tempo, Fernandinho arrancou pela esquerda e finalizou forte para abrir o placar. Aos 41, Luan fez um golaço: recebeu, avançou, escapou da marcação e tocou por cobertura na saída de Andrada. Sand descontou de pênalti no segundo tempo, mas o Grêmio venceu por 2 a 1, fechou o agregado em 3 a 1 e conquistou o tricampeonato da Libertadores.
Destaques da campanha de 2017
Luan foi o grande nome. Marcou oito gols, terminou entre os principais goleadores da competição e foi eleito o melhor jogador do torneio. Seu gol na final contra o Lanús sintetizou o auge técnico daquela equipe: talento, frieza e capacidade de decidir em jogo grande.
Lucas Barrios marcou seis gols e foi essencial como referência ofensiva. Fez hat-trick contra o Guaraní, marcou contra o Deportes Iquique, contra o Zamora e decidiu a classificação contra o Botafogo. Pedro Rocha, antes de deixar o clube durante a temporada, fez gols importantes na fase de grupos e nas oitavas. Fernandinho cresceu na reta final e marcou na decisão. Cícero virou personagem do título pelo gol da ida.
Marcelo Grohe teve uma campanha histórica. Sua defesa contra o Barcelona de Guayaquil, na semifinal, ficou marcada como uma das maiores intervenções de um goleiro em Libertadores. Geromel foi o capitão do título e liderou a defesa com enorme regularidade. Kannemann, suspenso na finalíssima, foi peça central até a decisão. Arthur deu refinamento ao meio-campo e mostrou uma maturidade rara. Ramiro, Michel, Edílson, Cortez, Maicon e Jael também tiveram peso no caminho até a taça.
Renato Portaluppi completou um ciclo raro. Campeão como jogador em 1983, tornou-se campeão da Libertadores como treinador em 2017. Poucos ídolos de clube conseguem atravessar gerações dessa forma. No caso de Renato, a conquista reforçou sua ligação quase inseparável com a história gremista.
O Olímpico, a Arena e a força da torcida na Libertadores
A casa gremista tem papel essencial na história do clube na Libertadores. Em 1983, o Olímpico foi o cenário da primeira conquista continental. O estádio lotado, o inverno gaúcho, a pressão sobre o Peñarol e o gol de César criaram uma noite definitiva para a identidade do Grêmio. O título nasceu também da atmosfera do Olímpico, um estádio que costumava transformar decisões em batalhas emocionais.
Em 1995, o Olímpico voltou a ser decisivo. Foi ali que o Grêmio goleou o Palmeiras por 5 a 0 nas quartas de final, abriu 3 a 1 sobre o Atlético Nacional na final e sustentou uma das campanhas mais intensas do clube. A torcida empurrava um time moldado para duelos físicos, bolas divididas, cruzamentos, pressão aérea e concentração máxima.
A Arena do Grêmio assumiu esse papel na era moderna. Em 2017, recebeu noites decisivas: o 4 a 1 sobre o Guaraní, o 4 a 0 sobre o Zamora, a vitória por 2 a 1 sobre o Godoy Cruz, o 1 a 0 contra o Botafogo e o 1 a 0 sobre o Lanús na primeira partida da final. Mesmo quando o título foi confirmado na Argentina, a Arena esteve no caminho da taça. A vantagem construída contra o Lanús em Porto Alegre foi fundamental para que o Grêmio jogasse a volta com controle emocional.
A torcida é parte inseparável dessa narrativa. O Grêmio se acostumou a viver Libertadores como evento coletivo: ruas no entorno tomadas, estádio pulsando, caravanas fora de casa e uma cultura de competição continental muito particular que atravessa gerações. Em 1983, a arquibancada viu Hugo de León erguer a taça ensanguentado. Em 1995, viveu a imposição física do time de Felipão. Em 2017, acompanhou um time mais técnico, mas igualmente competitivo. O cenário mudou, do Olímpico para a Arena, mas a mística permaneceu.
Os maiores jogadores nos títulos de Libertadores
Renato Portaluppi é o nome que conecta duas eras. Em 1983, foi ponta decisivo, garçom do gol do título e ídolo da conquista que abriu a era internacional do Grêmio. Em 2017, foi o treinador do tricampeonato. Sua presença nas duas pontas da história o coloca em um lugar único.
Hugo de León é o grande símbolo de liderança da primeira Libertadores. Capitão, zagueiro de imposição e figura mítica, representou a força emocional do time de 1983. Mazaropi, Tita, Osvaldo, Caio, César e Tarciso também fazem parte do núcleo eterno daquela conquista.
Em 1995, Jardel foi o grande artilheiro. Seus 11 gols fizeram dele o jogador mais letal da campanha. Paulo Nunes foi o parceiro ideal, com cinco gols e muita agressividade. Dinho marcou o pênalti que tranquilizou a final em Medellín. Danrlei virou símbolo de personalidade. Arce, Adilson, Rivarola, Roger, Goiano, Arílson e Carlos Miguel completaram uma equipe com a cara de Felipão.
Em 2017, Luan foi o craque. Oito gols, protagonismo técnico e um golaço em final. Arthur foi o cérebro do meio-campo. Marcelo Grohe foi segurança e milagre. Geromel e Kannemann formaram uma defesa histórica. Lucas Barrios foi goleador importante, com seis gols. Fernandinho e Cícero decidiram a final. Renato, como técnico, deu identidade, liberdade e confiança ao grupo.
A representatividade dos títulos na história
O título de 1983 representa a entrada definitiva do Grêmio no cenário internacional. Foi a conquista que transformou o clube em campeão da América e abriu caminho para o Mundial. A vitória contra o Peñarol, gigante uruguaio, deu ao Tricolor uma dimensão continental.
O título de 1995 representa a consolidação da mística copeira. O Grêmio de Felipão era competitivo ao extremo, forte em casa, resistente fora e letal no ataque. A campanha teve goleada, sofrimento, pênalti decisivo e uma dupla ofensiva que marcou época.
O título de 2017 representa a modernização da identidade gremista. O Grêmio seguiu copeiro, mas venceu jogando com qualidade técnica, posse, triangulações e controle. Foi um time que uniu tradição e estética, raça e futebol bem jogado, defesa forte e talento criativo.
A história do Grêmio na Libertadores é uma das mais ricas do futebol brasileiro. O clube venceu em três décadas diferentes, com três estilos distintos e três gerações marcantes. Em 1983, foi o time da batalha, de Renato, De León e César. Em 1995, foi o time da intensidade, de Felipão, Jardel, Paulo Nunes e Danrlei. Em 2017, foi o time do toque de bola, de Renato treinador, Luan, Arthur, Grohe, Geromel e Kannemann.
Poucos clubes conseguem transformar uma competição em parte tão profunda de sua identidade. No Grêmio, a Libertadores não é apenas um torneio importante. É um símbolo de pertencimento. Ela explica parte da relação da torcida com o clube, da valorização de jogadores decisivos, da idolatria por goleiros, zagueiros e atacantes de final, e da ideia de que o Tricolor cresce quando o jogo exige coragem.
Do Olímpico à Arena, de Porto Alegre a Montevidéu, Medellín e Argentina, o Grêmio construiu uma trajetória continental de respeito. Seus três títulos não contam apenas vitórias. Contam noites de pressão, gols eternos, defesas impossíveis, capitães históricos e uma torcida que aprendeu a se ver como protagonista da América.