Ronaldo Luís Nazário de Lima não recebeu o apelido de Fenômeno por acaso. Em seu auge, o atacante brasileiro reuniu características que pareciam incompatíveis em um mesmo jogador: tinha a explosão de um velocista, a força física de um centroavante, a habilidade de um camisa 10 e uma capacidade impressionante de decidir diante do goleiro.
A carreira de Ronaldo também ganhou uma dimensão humana que vai além dos números. O brasileiro chegou ao topo ainda muito jovem, enfrentou lesões capazes de encerrar prematuramente sua trajetória e voltou para comandar a Seleção Brasileira em um título mundial. Entre gols, cirurgias, prêmios individuais e grandes atuações, tornou-se um dos maiores símbolos da camisa 9.
O início da carreira
Nascido no Rio de Janeiro em 1976, passou pelas categorias de base do São Cristóvão antes de chegar ao Cruzeiro. Foi pelo clube mineiro que estreou profissionalmente, aos 16 anos, em 25 de maio de 1993, na vitória por 1 a 0 sobre a Caldense, pelo Campeonato Mineiro, já chamando atenção pela facilidade para marcar gols, pela arrancada em direção à área e pela maturidade incomum para alguém tão jovem.
Um dos lances mais emblemáticos dessa fase aconteceu em 7 de novembro de 1993, na goleada do Cruzeiro por 6 a 0 sobre o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro. Ronaldo marcou cinco gols naquela partida, mas o último entrou definitivamente para a memória do futebol nacional. Depois de realizar uma defesa, o experiente goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez colocou a bola no chão e se distraiu enquanto reclamava com seus companheiros. Atento ao lance, o jovem atacante apareceu por trás, tomou a bola e finalizou para o gol vazio.
Veja abaixo o gol
A jogada revelou uma característica que acompanharia durante toda a carreira: ele não desistia de nenhuma bola e estava permanentemente preparado para aproveitar o menor erro do adversário. Além da habilidade e da velocidade, o futuro Fenômeno já demonstrava inteligência, oportunismo e um instinto de goleador fora do comum. A atuação com cinco gols contra o Bahia tornou-se um dos grandes símbolos de sua passagem pelo Cruzeiro e ajudou a apresentar o atacante ao restante do Brasil.
A ascensão foi rápida. Aos 17 anos, Ronaldo já havia sido convocado para a Seleção Brasileira que disputaria a Copa do Mundo de 1994. Embora não tenha entrado em campo nos Estados Unidos, fez parte do grupo tetracampeão e conviveu com atacantes experientes, entre eles Bebeto e Romário, protagonista do tetra campeoanto.
Depois de se destacar no Cruzeiro, seguiu para o PSV, da Holanda. O clube holandês funcionou como sua porta de entrada no futebol europeu. Em duas temporadas, o brasileiro manteve média impressionante de gols e mostrou que sua explosão no Brasil não havia sido passageira. Logo em sua primeira temporada, marcou 30 gols no Campeonato Holandês.
A temporada histórica
Em 1996, foi contratado pelo Barcelona. Sua passagem pela Catalunha durou somente uma temporada, mas foi suficiente para produzir alguns dos momentos mais marcantes de sua carreira.
O brasileiro marcou 47 gols em 49 jogos pelo clube na temporada 1996/97. Foram 34 gols no Campeonato Espanhol, desempenho que lhe rendeu o prêmio de artilheiro da liga e a Chuteira de Ouro europeia. Ronaldo ainda ajudou o Barcelona a conquistar a Recopa Europeia e a Copa do Rei.
Foi no Barcelona que a imagem do atacante imparável ganhou força mundial. Ronaldo recebia a bola ainda distante da área, superava defensores em velocidade e mantinha equilíbrio mesmo sob contato físico. O gol contra o Compostela, no qual atravessou o campo resistindo às tentativas de marcação antes de finalizar, tornou-se uma das jogadas mais representativas daquele período.
A combinação de potência, aceleração e controle da bola fez com que Ronaldo fosse considerado o melhor atacante do mundo antes mesmo de completar 21 anos. O desempenho também ampliou as comparações com grandes nomes brasileiros que haviam brilhado no futebol espanhol.
Itália, título europeu e o início do drama físico
Após a temporada no Barcelona, foi contratado pela Inter de Milão. No clube, recebeu de forma definitiva o apelido de Fenômeno e passou a enfrentar algumas das defesas mais fortes e organizadas do futebol mundial.
Em sua primeira temporada, liderou a Inter na conquista da Copa da Uefa de 1997/98. Na final contra a Lazio, disputada em Paris, marcou um dos gols da vitória por 3 a 0. O lance resumiu sua qualidade diante do goleiro: Ronaldo avançou, aplicou uma sequência de movimentos sobre Luca Marchegiani e finalizou para a rede. Ao todo, o brasileiro marcou 59 gols em 99 partidas pela equipe italiana.
A passagem pela Inter, porém, foi marcada pelas lesões mais graves da carreira. Problemas no joelho reduziram sua sequência de jogos e levaram o atacante a longos períodos de recuperação. Em abril de 2000, pouco depois de voltar aos gramados, Ronaldo sofreu uma nova ruptura no joelho durante uma partida contra a Lazio.
A cena do atacante caído e chorando no gramado gerou dúvidas sobre a continuidade de sua carreira. Ronaldo passou por cirurgia, enfrentou uma recuperação demorada e ficou praticamente dois anos sem atuar regularmente. Aquele período transformaria a Copa do Mundo de 2002 em uma história de reconstrução, não apenas em mais um torneio de sua trajetória.
A Copa do Mundo de 1998 e a derrota na final
Antes das grandes lesões, ele havia sido o principal nome ofensivo do Brasil no Mundial de 1998. O atacante marcou quatro gols na campanha e ajudou a seleção a chegar à final contra a França.
Horas antes da decisão, Ronaldo sofreu um problema de saúde. Seu nome chegou a ser retirado da escalação inicial e depois reapareceu entre os titulares. Longe das melhores condições, o camisa 9 teve participação discreta na derrota brasileira por 3 a 0 no Stade de France.
A final de 1998 permaneceu como um dos episódios mais discutidos da história da Seleção Brasileira. Para Ronaldo, a partida representou o extremo oposto do que aconteceria quatro anos depois: de uma decisão cercada por dúvidas e frustração para uma atuação definitiva na conquista do pentacampeonato.
A redenção
A convocação de Ronaldo para a Copa do Mundo de 2002 foi cercada por incerteza. O atacante havia jogado pouco nas temporadas anteriores e ainda buscava recuperar ritmo após as cirurgias. Luiz Felipe Scolari, porém, confiou em sua capacidade de decisão.
A resposta foi uma das maiores atuações individuais da história das Copas. Ronaldo marcou oito gols em sete partidas e terminou como artilheiro do torneio. Balançou as redes contra Turquia, China, Costa Rica, Bélgica e novamente contra os turcos na semifinal. Na decisão diante da Alemanha, marcou os dois gols da vitória brasileira por 2 a 0.
O primeiro gol da final nasceu de uma característica clássica do atacante: atenção permanente dentro da área. Rivaldo finalizou, o goleiro Oliver Kahn não conseguiu segurar, e Ronaldo apareceu para aproveitar o rebote. No segundo, Rivaldo deixou a bola passar após jogada de Kléberson, e o camisa 9 finalizou de fora da área colocando no canto.
Ronaldo encerrou o Mundial como campeão, artilheiro e protagonista absoluto. Mais do que recuperar o posto de melhor atacante do planeta, mostrou que ainda podia decidir no nível mais alto depois de atravessar um dos processos de reabilitação mais difíceis enfrentados por um jogador de elite. A média do brasileiro naquela Copa foi de um gol a cada 69 minutos.
Dois anos após colocar a carreira em dúvida, Ronaldo levantava a Copa do Mundo. A imagem beijando o troféu em Yokohama tornou-se um dos símbolos mais importantes do pentacampeonato brasileiro.
Números em Copas do Mundo:
- 1994 — campeão, sem entrar em campo
- 1998 — vice-campeão e autor de quatro gols
- 2002 — campeão e artilheiro, com oito gols
- 2006 — eliminado nas quartas de final e autor de três gols
Com os três gols marcados em 2006, Ronaldo chegou a 15 em Copas e ultrapassou o então recorde de Gerd Müller. A marca permaneceu como a maior da história até 2014, quando o alemão Miroslav Klose alcançou 16. O brasileiro continua entre os maiores goleadores em Mundiais e ocupa posição de destaque na história dos gols da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
A era dos Galácticos
Depois da Copa do Mundo de 2002, Ronaldo foi contratado pelo Real Madrid em uma negociação com a Inter de Milão. A chegada ao clube espanhol carregava um ingrediente especial: antes de atuar na Itália, o atacante havia defendido o Barcelona, maior rival dos madridistas, na histórica temporada 1996/97.
Não se tratou de uma transferência direta entre os dois gigantes. Ronaldo deixou o Barcelona em 1997, passou cinco anos vinculado à Inter e somente depois chegou a Madri. Ainda assim, sua identificação com o clube catalão permanecia viva. Mesmo tendo atuado apenas uma temporada no Camp Nou, o brasileiro conquistou títulos e deixou atuações que o transformaram rapidamente em um dos jogadores mais admirados pela torcida do Barcelona.
A contratação pelo clube Merengue, portanto, colocou Ronaldo em um grupo restrito de grandes craques que vestiram as duas camisas dos rivais do futebol espanhol. O passado no Barcelona, porém, não impediu sua rápida conexão com o Santiago Bernabéu. Apresentado após o pentacampeonato mundial, o Fenômeno chegou como uma das maiores estrelas do planeta e passou a integrar a geração conhecida como Galácticos, ao lado de Luís Figo, Roberto Carlos, David Beckham e Zinedine Zidane.
Ronaldo marcou dois gols em sua estreia pelo Real Madrid, poucos minutos depois de entrar em campo, e rapidamente se tornou uma das principais referências ofensivas da equipe. Na primeira temporada, ajudou o clube a conquistar o Mundial Intercontinental e o Campeonato Espanhol, confirmando que sua capacidade de decisão permanecia intacta depois da recuperação física e do protagonismo na Copa de 2002.
Entre 2002 e 2007, Ronaldo disputou 177 partidas oficiais e marcou 104 gols pelo Real Madrid. Mesmo sem a mesma explosão física apresentada nos tempos de Barcelona e Inter de Milão, continuou sendo um finalizador de elite, capaz de decidir partidas com poucos toques, atacar espaços com inteligência e encontrar soluções diante de defesas fechadas.
A passagem também incluiu os títulos espanhóis das temporadas 2002/03 e 2006/07, além da artilharia de La Liga em 2003/04. Não conquistou a Liga dos Campeões, uma das poucas grandes taças ausentes em seu currículo, mas deixou o clube como um dos atacantes mais populares de sua geração. Sua trajetória na Espanha ficou marcada por algo raro: brilhou pelos dois maiores rivais do país, construiu momentos históricos com as camisas de Barcelona e Real Madrid e foi respeitado por torcedores dos dois lados.
As movimentações financeiras em transferências
A carreira de Ronaldo Fenômeno também foi marcada por negociações milionárias. Ainda muito jovem, o atacante já despertava o interesse de grandes clubes europeus e, em diferentes momentos, tornou-se uma das transferências mais caras do futebol mundial.
Os valores foram divulgados em moedas diferentes, já que parte das negociações aconteceu antes da adoção do euro. Por isso, as conversões devem ser tratadas como aproximadas.
- Cruzeiro para o PSV, em 1994: Depois de se destacar no futebol brasileiro, deixou o Cruzeiro aos 17 anos para defender o PSV, da Holanda. O clube europeu pagou aproximadamente US$ 6 milhões pelo atacante, que rapidamente confirmou seu potencial no Campeonato Holandês.
- PSV para o Barcelona, em 1996: Após duas temporadas de muitos gols na Holanda, foi contratado pelo Barcelona por 34 milhões de florins holandeses, valor equivalente a aproximadamente € 15 milhões. Naquele momento, a negociação estabeleceu um novo recorde mundial de transferência.
- Barcelona para a Inter de Milão, em 1997: Depois de uma temporada histórica na Espanha, o brasileiro deixou o Barcelona porque a Inter de Milão pagou sua cláusula de rescisão, fixada em 4 bilhões de pesetas. Pela conversão nominal, a operação ficou próxima de € 24 milhões.
- Inter de Milão para o Real Madrid, em 2002: Campeão e artilheiro da Copa do Mundo de 2002, retornou ao futebol espanhol para defender o Real Madrid. A transferência foi concluída por aproximadamente € 45 milhões e colocou o Fenômeno no centro do projeto dos Galácticos.
- Real Madrid para o Milan, em 2007: Já na fase final de sua trajetória europeia, foi negociado com o Milan por aproximadamente € 7,5 milhões.
- Milan para o Corinthians, em 2008: A chegada ao Corinthians não envolveu pagamento ao Milan. Ronaldo estava sem contrato e assinou diretamente com o clube brasileiro, que estruturou um acordo envolvendo salários, patrocínios e participação em receitas comerciais.
Considerando os valores nominais divulgados, sem correção pela inflação, as transferências de Ronaldo movimentaram aproximadamente € 100 milhões ao longo da carreira. O número ajuda a dimensionar sua importância esportiva e comercial: antes mesmo da explosão atual do mercado, o Fenômeno já era tratado como um dos jogadores mais valiosos do planeta.
O retorno ao Brasil
Em janeiro de 2007, Ronaldo deixou o Real Madrid e foi contratado pelo Milan. O atacante marcou nove gols em 20 jogos pelo clube italiano, mas voltou a sofrer uma grave lesão no joelho em fevereiro de 2008. O problema interrompeu sua passagem pela equipe e provocou uma nova longa recuperação.
Quando muitos acreditavam que sua carreira havia terminado, Ronaldo retornou ao futebol brasileiro para defender o Corinthians. Contratado no fim de 2008, estreou na temporada seguinte e rapidamente se tornou o principal personagem do clube.
Em 2009, comandou o Corinthians no título do Campeonato Paulista e na conquista da Copa do Brasil. Um dos grandes momentos aconteceu na final estadual contra o Santos, quando marcou um gol por cobertura na Vila Belmiro. Na Copa do Brasil, foi decisivo durante a campanha que devolveu o clube à Copa Libertadores.
Ronaldo disputou 69 partidas e marcou 35 gols com a camisa corintiana. Sua presença também teve forte impacto comercial, aumentou a exposição internacional do clube e aproximou uma nova geração de torcedores. O atacante anunciou a aposentadoria em fevereiro de 2011.
Os gols por cada clube
Considerando apenas partidas oficiais, Ronaldo Fenômeno marcou 352 gols pelos sete clubes que defendeu ao longo da carreira.
- Cruzeiro — 44 gols
- PSV — 54 gols
- Barcelona — 47 gols
- Inter de Milão — 59 gols
- Real Madrid — 104 gols
- Milan — 9 gols
- Corinthians — 35 gols
- Seleção Brasileira — 67 gols
- Total por clubes e Seleção Brasileira — 419 gols
Os principais títulos da carreira
Seleção Brasileira:
- Copa do Mundo — 1994 e 2002
- Copa América — 1997 e 1999
- Copa das Confederações — 1997
Clubes:
- Copa do Brasil — Cruzeiro, em 1993, e Corinthians, em 2009
- Copa da Holanda — PSV, em 1995/96
- Recopa Europeia — Barcelona, em 1996/97
- Copa do Rei — Barcelona, em 1996/97
- Copa da Uefa — Inter de Milão, em 1997/98
- Mundial Intercontinental — Real Madrid, em 2002
- Campeonato Espanhol — Real Madrid, em 2002/03 e 2006/07
- Campeonato Paulista — Corinthians, em 2009
Entre os prêmios individuais, Ronaldo conquistou duas Bolas de Ouro, em 1997 e 2002, e foi eleito três vezes o melhor jogador do mundo pela Fifa, em 1996, 1997 e 2002. Também ganhou a Chuteira de Ouro europeia em 1997 e foi o artilheiro da Copa do Mundo de 2002.
Como ele mudou a posição do camisa 9
Ronaldo não era um centroavante limitado à pequena área. Ele podia recuar para receber, iniciar jogadas de longe, atacar espaços nas costas da defesa e superar adversários no drible. Sua aceleração nos primeiros metros era especialmente difícil de controlar, porque vinha acompanhada de força e domínio da bola.
Diante dos goleiros, possuía repertório completo. Finalizava colocado, chutava com potência, driblava antes de marcar e usava as duas pernas. Também tinha facilidade para alterar a direção da corrida sem perder velocidade, uma característica que castigava defensores em situações de campo aberto.
O atacante sofreu mudanças físicas ao longo da carreira. Após as lesões, perdeu parte da explosão que havia mostrado no PSV, no Barcelona e no início da Inter. Em compensação, tornou-se ainda mais eficiente na movimentação, no posicionamento e na definição das jogadas.
Essa capacidade de adaptação explica por que Ronaldo continuou marcando em alto nível mesmo depois de enfrentar problemas que teriam encerrado a trajetória de muitos jogadores. Seu futebol permaneceu marcado pela combinação de potência, técnica, inteligência e habilidade diante dos adversários.
O legado deixado
O Fenômeno foi o rosto de uma geração, atravessou diferentes escolas do futebol europeu e protagonizou uma das maiores histórias de recuperação do esporte.
Seu legado está nos atacantes que passaram a combinar velocidade, força e habilidade; na camisa 9 da Seleção Brasileira, que ganhou ainda mais peso depois de 2002; e na memória de torcedores que viram um jogador aparentemente imparável retornar depois de sucessivas lesões.
Ronaldo não teve a carreira mais longa nem conquistou todos os títulos possíveis. Entretanto, durante seus melhores anos, apresentou um nível de domínio individual raramente visto. Era capaz de receber longe do gol e transformar uma jogada comum em uma oportunidade clara em poucos segundos.
Por isso, qualquer discussão sobre os maiores centroavantes da história precisa passar por Ronaldo Fenômeno. Sua carreira reuniu brilho precoce, gols decisivos, dramas físicos, títulos mundiais e uma redenção que ultrapassou o futebol. O camisa 9 não foi apenas um grande goleador. Foi um jogador que redefiniu o que o mundo esperava de um atacante.