O título do Sport na Copa do Brasil de 2008 é um dos capítulos mais fortes do mata-mata nacional. Não foi apenas a primeira conquista do clube pernambucano no torneio. Foi também o primeiro título de um clube do Nordeste na competição e, até aqui, o único da região na Copa do Brasil, uma marca que mantém aquela campanha em lugar especial dentro do futebol brasileiro.
A trajetória rubro-negra teve 12 jogos, sete vitórias, dois empates e três derrotas, com 24 gols marcados e 13 sofridos. Mais do que os números, o peso da campanha está no caminho: o Sport eliminou clubes tradicionais, superou campeões da própria Copa do Brasil e decidiu o título contra o Corinthians, em uma final resolvida pelo critério do gol fora de casa. O torneio de 2008 teve 64 participantes e deu ao campeão uma vaga na Libertadores de 2009.
Naquele ano, o time comandado por Nelsinho Baptista tinha uma identidade clara: forte em casa, intenso nos duelos físicos, perigoso em bola parada e emocionalmente resistente. Magrão, Durval, Dutra, Daniel Paulista, Sandro Goiano, Romerito, Carlinhos Bala, Leandro Machado entre outros,foram personagens centrais de uma campanha que transformou a Ilha do Retiro em um dos palcos mais temidos do país.
A conquista também reforçou o DNA imprevisível da história da Copa do Brasil. O torneio sempre abriu espaço para campanhas fora do roteiro óbvio, e o Sport entrou nesse grupo de campeões que desafiaram favoritismos. Nesse contexto, o título rubro-negro conversa com outras zebras históricas, como a campanha do Juventude campeão da Copa do Brasil de 1999, outro exemplo de como o mata-mata nacional pode mudar a hierarquia do futebol brasileiro.
O início contra o Imperatriz
A caminhada começou em 27 de fevereiro de 2008, no estádio Frei Epifânio, no Maranhão. O Sport empatou por 2 a 2 com o Imperatriz em uma estreia mais complicada do que o esperado. Durval abriu o placar para o Leão, Fabinho Paulista empatou para os maranhenses, Carlinhos Bala recolocou o Sport na frente e Valdanes igualou no fim. O resultado evitou uma largada ruim, mas deixou claro que a campanha não seria fácil.
Na volta, em 5 de março, na Ilha do Retiro, o Sport impôs sua força. A goleada por 4 a 1 eliminou o Imperatriz e deu o primeiro sinal do padrão que marcaria a campanha: quando jogava no Recife, o Leão crescia. A classificação veio com autoridade e abriu caminho para um confronto mais exigente na segunda fase.
Classificação com duas vitórias rubro-negras
Na segunda fase, o adversário foi o Brasiliense. O jogo de ida aconteceu em 2 de abril, no Serejão, em Taguatinga. O Brasiliense saiu na frente com Patrick antes do primeiro minuto, mas o Sport virou com Dutra e Romerito, mesmo tendo Durval expulso no segundo tempo. A vitória por 2 a 1 fora de casa deu ao Leão uma vantagem importante para decidir em Pernambuco.
Na Ilha do Retiro, em 9 de abril, o Sport voltou a golear por 4 a 1. Carlinhos Bala, Igor, Roger e Enílton marcaram para o time pernambucano, enquanto Iranildo descontou para o Brasiliense. O placar agregado de 6 a 2 confirmou uma classificação tranquila e consolidou o poder ofensivo da equipe.
O primeiro gigante eliminado
As oitavas de final colocaram o Sport diante do Palmeiras, um dos confrontos mais simbólicos da campanha. O time paulista era comandado por Vanderlei Luxemburgo e tinha nomes como Marcos, Valdívia, Diego Souza, Kléber e Alex Mineiro. Era também um clube que já conhecia o gosto de vencer a competição, como mostra a própria história dos títulos do Palmeiras.
No jogo de ida, em 24 de abril, no antigo Palestra Itália, Sport e Palmeiras empataram por 0 a 0. Foi uma partida de resistência, com Magrão e Marcos em destaque. O empate sem gols deixou tudo aberto para a volta, mas transferiu a pressão para a Ilha do Retiro.
A resposta rubro-negra foi arrasadora. Em 30 de abril, o Sport venceu por 4 a 1, com atuação histórica de Romerito. O meia marcou três gols, enquanto Dutra fechou a goleada com um chute forte. Alex Mineiro fez o gol palmeirense. O detalhe dramático é que, quando o Palmeiras empatou por 1 a 1, o critério do gol fora colocava os paulistas em vantagem momentânea. Romerito, porém, decidiu a noite e transformou aquela vitória em ponto de virada da campanha.
Classificação em virada dramática
Nas quartas de final, o Sport enfrentou o Internacional, outro adversário de peso na rota rubro-negra. A eliminação colorada aumentou o tamanho da campanha porque o Inter era um clube acostumado a torneios grandes e vinha de um período forte no cenário nacional e continental. A trajetória colorada na competição se conecta diretamente ao título do Internacional na Copa do Brasil de 1992.
O primeiro jogo foi em 7 de maio, no Beira-Rio. O Internacional venceu por 1 a 0, com gol de Alex, e obrigou o Sport a buscar a virada no Recife. A desvantagem era perigosa, porque qualquer gol colorado na Ilha mudaria completamente o confronto.
Na volta, em 14 de maio, o Sport venceu por 3 a 1 em uma das partidas mais emocionantes da campanha. Leandro Machado abriu o placar cedo, Sidnei empatou para o Internacional, e o Leão precisou fazer mais dois gols para avançar. Roger recolocou o Sport na frente, e Durval, em cobrança de falta de longa distância, marcou o gol da classificação. O zagueiro, símbolo defensivo da equipe, virou também protagonista ofensivo em um dos lances mais lembrados daquele título.
Avanço nos pênaltis em São Januário
A semifinal foi contra o Vasco, clube que ainda seria campeão da Copa do Brasil em 2011, em uma campanha que também ganharia peso histórico no torneio. A ligação entre os dois momentos ajuda a entender como o Sport, antes disso, barrou no caminho um time tradicional de mata-mata que depois escreveria sua própria página na competição, como mostra o título do Vasco na Copa do Brasil de 2011.
O jogo de ida, em 21 de maio, foi na Ilha do Retiro. O Sport venceu por 2 a 0, com gol contra de Jorge Luiz e gol de Daniel Paulista. A vantagem era ótima, mas não definitiva. O Vasco tinha Edmundo, Leandro Amaral, Morais, Wagner Diniz e um elenco capaz de pressionar em São Januário.
Na volta, em 28 de maio, o Vasco devolveu o placar: 2 a 0. A decisão foi para os pênaltis. Ali apareceu um dos momentos mais emblemáticos da campanha: Magrão converteu sua cobrança, o Sport venceu por 5 a 4 e chegou à final. A classificação, conquistada fora de casa e no limite emocional, reforçou o caráter do time de Nelsinho Baptista.
A final
A decisão colocou frente a frente Sport e Corinthians. O clube paulista já havia conquistado a Copa do Brasil em 1995 e 2002, e chegava à final com Mano Menezes, Felipe, Chicão, André Santos, Dentinho, Herrera e Acosta. Era um adversário de massa, tradição e grande força competitiva. Por isso, a conquista pernambucana também passa pela história dos títulos do Corinthians na Copa do Brasil.
O primeiro jogo foi em 4 de junho, no Morumbi. O Corinthians abriu 3 a 0, com gols de Dentinho, Herrera e Acosta, e parecia encaminhar o título. Mas Enílton marcou aos 83 minutos e fez o gol que mudaria toda a decisão. Com o critério do gol fora de casa, o Sport passou a precisar de uma vitória por 2 a 0 na Ilha do Retiro. O placar era difícil, mas possível.
A volta aconteceu em 11 de junho de 2008, no Recife. A Ilha do Retiro recebeu mais de 34 mil torcedores e virou um caldeirão. O Sport precisava ser perfeito, e foi. Carlinhos Bala abriu o placar aos 34 minutos do primeiro tempo, após jogada de Luciano Henrique. Três minutos depois, Luciano Henrique marcou o segundo. Em poucos minutos, o Leão construiu o resultado exato do título.
O Corinthians ainda tentou reagir, mas o Sport resistiu. Wellington Saci e William foram expulsos pelo lado paulista, e Magrão apareceu em momento decisivo no fim. O 2 a 0 deu a taça ao clube pernambucano pelo critério do gol fora de casa: 3 a 3 no agregado, com o gol de Enílton no Morumbi valendo ouro.
A escalação da finalíssima
Na partida que confirmou o título, o Sport jogou com Magrão; Diogo, Igor, Durval e Dutra; Daniel Paulista, Sandro Goiano, Luciano Henrique e Kássio; Carlinhos Bala e Leandro Machado. Também entraram Enílton, Everton e Roger. O técnico era Nelsinho Baptista.
O Corinthians entrou com Felipe; Carlos Alberto, Chicão, William e André Santos; Fabinho, Eduardo Ramos, Alessandro e Diogo Rincón; Dentinho e Herrera. Mano Menezes comandava o time paulista.
A escalação mostra o equilíbrio daquele Sport. Magrão era segurança no gol; Durval liderava a defesa; Dutra tinha força pelo lado esquerdo e participação ofensiva; Sandro Goiano e Daniel Paulista davam combate; Romerito foi decisivo até a semifinal; Luciano Henrique e Carlinhos Bala decidiram a final; Enílton marcou o gol que mudou o título no Morumbi.
O título do Sport é histórico por vários motivos. Foi a primeira Copa do Brasil vencida por um clube do Nordeste. Foi a única da região até aqui. Foi conquistada em uma rota com Palmeiras, Internacional, Vasco e Corinthians. E teve uma final em que o Leão precisou transformar uma derrota por 3 a 1 em um título decidido nos detalhes.
A campanha também teve o elemento da zebra campeã. Não porque o Sport fosse pequeno, mas porque enfrentou adversários com elencos mais badalados, maior exposição nacional e histórico mais amplo no torneio. O Leão derrubou o Palmeiras de Luxemburgo, o Internacional de Abel Braga, o Vasco de Edmundo e o Corinthians de Mano Menezes. Em cada fase, encontrou um tipo diferente de pressão.
O peso simbólico para o Nordeste
A Copa do Brasil de 2008 virou uma bandeira regional. O Sport não carregava apenas a própria torcida. Carregava também a possibilidade de provar que um clube nordestino podia vencer o torneio nacional de mata-mata mais democrático do país. A conquista colocou Pernambuco no topo da competição e deu ao clube uma vaga na Libertadores de 2009.
Mais do que uma taça, aquele título virou identidade. A Ilha do Retiro ganhou aura de decisão, a torcida rubro-negra eternizou personagens e o clube passou a carregar uma conquista que nenhum outro nordestino repetiu na Copa do Brasil. O Sport campeão de 2008 permanece como uma das campanhas mais marcantes do futebol brasileiro porque reuniu drama, força local, superação, gols decisivos e um desfecho perfeito para uma noite eterna no Recife.